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Sesc entrevista Aderbal Freire-Filho

Nesse bate-papo, o ator, autor e diretor avalia os 40 anos de carreira e fala de sua próxima peça que estreia no Sesc Ginástico


publicado em 15-06-14

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        Aderbal Freire-Filho é um entusiasta. Bastam alguns minutos de conversa para perceber seu constante gestual cênico e uma permanente empolgação ao detalhar sua trajetória. Com mais de 100 peças no currículo quatro décadas dedicadas às artes, o diretor, ator e dramaturgo cearense se mudou para o Rio aos 29 anos de idade já com um extenso currículo teatral. Hoje, é considerado um dos diretores e autores mais respeitados no país, não só pela sua forma de “coreografar as palavras” em cena - como define seu trabalho – mas, também, pelo histórico de encenações de autores clássicos internacionais e nacionais, como Oduvaldo Vianna Filho. Em sua quarta montagem de uma peça do dramaturgo, intitulada “Vianninha conta o último combate do homem comum”, nome adaptado do título original “Em Família”, Aderbal estreia no próximo dia 20 de junho, no histórico Teatro Sesc Ginástico. Nessa conversa, ele fala sobre suas histórias, sua percepção sobre teatro atual e o trabalho do Sesc em todo o Brasil.

Por que a escolha de um texto do Vianninha?
R - É sempre oportuno fazer um texto do Vianninha. Ele é um dos nossos autores clássicos. O teatro brasileiro é jovem, recente e a gente reconhece esse mesmo valor no teatro do Nelson Rodrigues, uma das nossas referências. Ambos são inventores do teatro brasileiro, que bebe dos teatros universais. O Vianninha é um “autor inventor” que descobriu formas novas, “abriu o palco”. O  teatro dele tem características não só dramáticas quanto épicas. Os personagens trazem reflexão e um pensamento que traduz o homem comum brasileiro. É um teatro vivo, para fora, inventor. O Vianninha aponta caminhos, levanta questões. Os diálogos dele são de mestre. A hora é essa de fazer Vianninha. A hora é sempre!

O que você destaca nesta montagem e qual diferencial cênico você trouxe para esse texto?
R – É uma peça que muita gente costuma dizer que é especial e carinhosa com os idosos. O Vianninha quis escrever uma peça sobre a velhice, sobre o que acontece no fim de uma trajetória, da longa batalha da vida. O que acontece com os velhinhos quando eles não têm mais forças para guerrear. Muita gente fala que a peça é bonita, tocante e emocionante. É lindo exercitar esses valores e sentir o tipo de comunicação que esse texto tem com a plateia por ser comovente e sensível. Além disso, o personagem idoso do texto é um do Vianna, de outras peças dele. É um sujeito derrotado, mas o Vianna não deixa de reconhecer esse personagem como um vencedor. Existe esse paradoxo. Como o confronto da derrota com a vitória é difícil de ser analisado e entendido, não é um personagem de uma peça só. Este personagem está em quase todas as peças do Vianna. E essa peça é dedicada a esse personagem dele, que permeia toda a sua obra, por isso é especialíssima. É o personagem nuclear da sua obra. Quem trabalhou assim foi (o dramaturgo francês) Molière. Por isso, mais uma vez percebo o Vianninha clássico. A diferença é que o Molière colocou o personagem como título da peça, como “O Avarento”, “O Misantropo”, “O Tartufo”.  Talvez essa peça pudesse se chamar “O Derrotado” ou “O Vencedor”.

Como você analisa o cenário atual do teatro no Brasil?
R – Esse momento é curioso. Tenho pontos de vista opostos. Em relação ao mercado, reduzindo à expressão capitalista, a busca do público e o interesse que o teatro desperta, é um momento bom. Mas também existem muitas peças interessantes que não têm público. O teatro está pouco valorizado culturalmente pela sociedade. Mas a importância dele é essencial e permanente. Tenho a impressão que os escritores e críticos têm dado pouca importância ao teatro. Há um pensamento mais qualificado da crítica sobre a música brasileira, sobre o cinema brasileiro, sobre a literatura brasileira do que sobre o teatro brasileiro. Você não vê um pensamento crítico e qualificado.

Você possui mais de 100 peças no currículo ao longo de 40 anos de carreira. Como você define a sua assinatura e o seu diferencial como diretor?
R – Caracterizo meu trabalho pela crença no poder da cena. Acredito nas possibilidades infinitas de expressão cênica. No palco pode tudo. Tudo é possível para a imaginação. É preciso tocar a plateia para que ela complete a cena. É como colocar um mar em cena e fazer público acreditar que aquilo é o mar. O cinema coloca de verdade. O teatro não pode e nem precisa. Se você despertar a imaginação do público, você coloca o mar em cena. Essa é a principal marca do meu trabalho. A inspiração vem daí. O passo seguinte é capacitar o ator para esse jogo de diálogo permanente com a imaginação do espectador. Tenho uma relação de muita parceria com os atores. Mas não sou um diretor que adota todas as contribuições do ator. Tem diretores que consideram que invadir a liberdade do ator é impor. Não considero isso. Em uma peça a primeira imposição são as palavras, o texto do autor. São aquelas que o ator vai decorar. No meu trabalho nunca há uma castração do ator. Em uma peça minha, tinha um personagem de cadeira de rodas que caía de um penhasco, rolava e morria afogado no mar. Isso no palco. Como vou mostrar isso sem penhasco, sem mar? Quando ele morria, as pessoas sempre aplaudiam. Ficavam chocadas de vê-lo caindo pela encosta e morrendo afogado. Era uma coreografia. Me considero um coreógrafo de palavras. Eu coreografo a peça inteira sempre dialogando e discutindo os motivos com os atores. Por isso, no final, eles se sentem coautores.

Há poucos anos você surpreendeu quando declarou que não tinha televisão. Agora você apresenta um programa, “Arte do Artista”, na TV Brasil. Isso o fez mudar de ideia e comprar uma TV?
R – Não! Nem me interessa dirigir para a televisão. O que me interessa é dirigir no cinema. Mas agora dei um grande avanço comprando um adaptador para o Ipad que dá para ver televisão. Realmente agora tenho um convívio com a televisão que me aproxima muito dela. Adoro fazer esse programa. Mas não o assisto na televisão, só na ilha de edição, quando ele fica pronto. Estou encantado com o mundo da televisão e vendo tolices em alguns preconceitos meus. Tenho visto que na televisão também podemos ter uma qualidade de público. Escrevo, apresento e edito. Fico horas na ilha de edição me divertindo.

Você já fez diversas peças no Sesc. Recentemente, dirigiu “Jacinta”. Qual a sua ligação com o Sesc?
R – Acho o Sesc formidável. Esse tipo de difusão cultural é feito pelo estado em outros países. Na França, o poder público difunde e dissemina o teatro. Aqui, este papel tem sido cumprido pelo Sesc. Participei de muitas coisas aqui. Se você faz teatro, você já teve alguma ou muita convivência com o Sesc. Na peça “Isabel”, que o Domingos de Oliveira dirigiu, eu atuei com a Maytê Proença e fiz o Circuito Sesc de Teatro no Rio: Madureira, São João de Meriti, Friburgo. Foi sensacional. Sou um ator do Sesc. Em São Paulo, quase todos os meus romances em cena foram feitos em várias unidades do Sesc. Meu “MacBeth” (tragédia de Shakespeare) foi no Sesc Pinheiros. Já participei de mesas redondas no Sesc Belenzinho e no Rio. Estava faltando apenas eu voltar para cá, para o Sesc Ginástico, que desde que ele passou a ser Sesc, eu não encenava nada. Vai ser ótimo reencontrar esse espaço. Sou Sesc total!