"Adicionar anos à vida e adicionar vida aos anos". É sob esta insígnia, que sugere às populações humanas viver mais e melhor, que se inicia, em 1974, o Movimento de Promoção da Saúde. A idéia é proposta pelo então Ministro da Saúde do Canadá, Marc Lalonde, através do chamado Relatório Lalonde, que traz como novidade o uso sistemático da educação como estratégia para formar nas populações hábitos saudáveis de vida.
Em 1978 ocorre a 1ª Conferência Internacional de Atenção Primária à Saúde, em Alma Ata (Cazaquistão, URSS), sob os auspícios da Organização Mundial de Saúde, que afirma a necessidade de cuidados com o ambiente e as condições de vida como determinantes do processo saúde-doença. A idéia de Promoção da Saúde se fortalece nesse processo, até que, em 1986, acontece a 1ª Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde em Ottawa (Canadá) que propaga no documento final o seguinte: "A promoção da saúde consiste em proporcionar aos povos os meios necessários para melhorar sua saúde e exercer um maior controle sobre a mesma". "Os pré-requisitos para a saúde são: a paz, a educação, a moradia, a alimentação, a renda, um ecossistema estável, justiça social e a equidade. Qualquer melhora da saúde há de ter como base, necessariamente, estes pré-requisitos". Na rota da Carta de Ottawa foram realizadas ainda as conferências de Adelaide (Austrália, 1988), Sundsvall (Suécia, 1991) e Jacarta (Indonésia, 1997), que desenvolveram as bases conceituais e políticas da promoção da saúde.
A Promoção da Saúde tem se utilizado do conceito de vigilância à saúde para prevenir os agravos, sendo sensível aos grupos populacionais mais susceptíveis ao adoecimento, como os idosos, as crianças, as gestantes e aqueles que vivem em condições de risco social e ambiental. Um princípio fundamental da promoção é o da solidariedade, a idéia segundo a qual se devem organizar parcerias entre entidades, órgãos governamentais e grupos sociais para cercar a população do cuidado necessário à boa saúde.
É importante salientar que um dos resultados a serem obtidos com a Promoção da Saúde deve ser o de desenvolver nas pessoas o autocuidado, em que as pessoas adotam a idéia do cuidado de si como rotina. Isto significa não apenas o cuidado do corpo, mas, sobretudo, da vida subjetiva, das relações humanas e da condição psíquica de cada um.
Entendemos que a Promoção da Saúde deve produzir competência nos grupos populacionais para a gestão da vida, o que significa mantê-la equilibrada sob todos aspectos, no âmbito profissional e pessoal, por exemplo. No mundo atual o modo de vida tornou-se extremamente competitivo, os acontecimentos se desenvolvem em alta velocidade, impulsionados pela TV, pela internet e pelo acúmulo de informações. Apareceram novos personagens na cena cotidiana, como o workahoalic (trabalhador compulsivo) e o burn out (estado de exaustão prolongada e diminuição de interesse, especialmente em relação ao trabalho), e assim vão se propagando as doenças da modernidade, que já se somam à alta incidência de hipertensão, diabetes e estresse. A gestão da vida significa saber manejar situações que previnam chegar a este estado limite de infelicidade e doença.
A Promoção da Saúde deve produzir autonomia, ou seja, uma pessoa com habilidade e vontade para o autocuidado é mais autônoma, menos dependente de serviços de saúde e, portanto, mais presente nas suas atividades cotidianas, junto à família e ao trabalho.
No Brasil, o Ministério da Saúde através do Departamento de Informática do SUS (Datasus) informa que 46,4% da população têm excesso de peso, 44,6% têm atividade física insuficiente, 41,0% sofrem de hipertensão arterial, 17,5% têm hábito tabagista e 9,3% fazem consumo excessivo de álcool. Somam-se a estes problemas a alta prevalência de diabete melito e a preocupante incidência de dependência química nas empresas. Por outro lado, estima-se que menos de 5% das empresas oferecem programas de Promoção da Saúde.
Os dados demonstram a premência da adoção de programas de Promoção da Saúde nas comunidades, entidades da sociedade, empresas, redes de serviços de saúde, enfim, onde houver vida humana. De baixo custo e alta eficácia, a Promoção da Saúde pode ser uma importante estratégia de gestão da vida pelos grupos populacionais, com melhoria na sua qualidade e redução dos agravos à saúde. É uma aposta em que todos ganham. A população, porque terá boa qualidade de vida, e os trabalhadores da saúde, porque terão difundidas estratégias eficazes de produção do cuidado.
* Túlio Batista Franco é Professor Doutor da Universidade Federal Fluminense.
Publicado em 7/4/2009 Revista SESC Rio - Abril/2009 |