Psicanalista e psiquiatra, em São Paulo, Jorge Forbes é um dos principais introdutores do pensamento de Jacques Lacan no Brasil, de quem foi aluno. Participou da criação da Escola Brasileira de Psicanálise, da qual foi o primeiro diretor-geral. Atualmente, preside o Instituto da Psicanálise Lacaniana (IPLA) e dirige as pesquisas clínicas da Psicanálise com a Genética, no Centro de Estudos do Genoma Humano - USP e o Projeto Análise. Além de membro das Escolas Brasileira e Européia de Psicanálise, ele é autor de vários artigos e livros, como o best seller "Você Quer o Que Deseja?".
Homens jogando dominó na praça, mulheres cuidando dos netos. Esta é a imagem da pessoa com 60 anos ou mais? Qual é a realidade?
Esta é a imagem romântica, idílica, nem sempre atingível, ou mesmo, nem sempre buscada. A realidade hoje é bem menos contemplativa e despreocupada que a de ontem. O que encontramos são pessoas mais próximas da exclamação: 70 anos, puxa!, tenho mais quarenta pela frente...
Segundo o IBGE, em 2050, a população com 60 anos ou mais será quase um terço da população total. E um terço daqueles idosos terá mais de 75 anos. Haverá trabalho e/ou ocupação para todos?
Nos moldes atuais, dificilmente. Nem trabalho, nem - há que se lembrar - aposentadoria para todos. Mas não é o caso de se desesperar, um novo laço social está em construção, o que trará soluções inventivas e jamais imaginadas.
O tempo livre leva ao ócio?
Pergunta difícil, pois para ter ócio é necessário o tempo livre. Mas isso não é suficiente. Há um ócio interessante, que é o ócio criativo. No entanto, há também o desinteressante: o ócio aborrecido que deprime a pessoa.
Embora a formação de grupos da terceira idade, que se reúnem para diversos tipos de atividade, seja reconhecidamente benéfica sob vários pontos de vista, isto não incentivaria a criação de guetos de idosos? A intergeracionalidade é uma ficção?
Velho com velho, moço com moço, advogado com advogado, contador com contador, chefe com chefe, filho com filho, seja qual for à forma das categorias: por idade, profissão, sexo e outras, é sempre muito chato e emburrecedor o igual com o igual. A palavra divertida fala do diverso, não do igual: claro que as relações intergeracionais são possíveis e bem-vindas.
Por que a tendência a perseguir o belo é muito reforçada entre os idosos? A rejeição à velhice é um mecanismo de defesa natural do homem?
A velhice está mais próxima da morte, não dá para ser diferente. Se o jovem se pergunta como decolar, o velho quer saber onde aterrissar. A beleza é como o céu de brigadeiro, permite um voo e pouso mais confiáveis e curtidos.
O senhor disse que a oportunidade de experimentar várias paixões na vida é uma característica do nosso tempo e que a adolescência mudou de faixa etária. Por que?
Aqueles que, hoje, têm 50, 60 anos, tinham uma expectativa de vida, quando eram jovens, de até os 70 anos. Eles pensavam em se casar lá pelos 25 anos - homens - e 22 anos - mulheres -; ter filhos na faixa dos 30; viver a maturidade até os 60; aposentar, curtir os netos e morrer, na casa dos 70. Aí, no meio do caminho chegou o presente: - Comece a pensar o que você vai fazer até os 100 anos -. É uma baita mudança de perspectiva. O futuro ficou muito longe, falta perna para chegar até lá e não se sabe muito bem como e com que meios. Temos todos os ingredientes para uma nova adolescência, é o que vejo todos os dias no consultório. O que tenho dito é que o tempo atual nos responsabiliza diretamente com quem e onde estamos; não temos nenhuma desculpa, nenhum constrangimento social para estar com quem não queremos. Foi-se o tempo de ficar com alguém por obrigação ou piedade, o que, aliás, era muito presunçoso.
O escritor Autran Dourado, 72 anos, diz que "A sociedade impõe idades para a paixão". O senhor concorda?
Concordo, a priori, com tudo o que o escritor diz, depois vou pensar por quê. No caso, ok, "A sociedade impõe idades para a paixão", mas não por isso proíbe paixões em cada idade.
Por pudor ou preconceito, o sexo na terceira idade não é muito comentado, provavelmente com receio de ser ridicularizado. Isto está cristalizado ou é uma tendência que pode ser mudada?
É algo que tem a tendência de ser mudada, como outros comportamentos na esfera amorosa também estão mudando, por exemplo: as diferenças de idade entre os parceiros ou os amores homossexuais.
É lícito afirmar que as pessoas mais velhas, embora possam ter dificuldades de memória, por exemplo, têm consciência de que isto é compensado por uma maior maturidade proporcionada pela experiência?
A perda da memória ser compensada pela experiência cheira prêmio de consolação; incomoda muito ter a memória diminuída. É um pouco como no futebol: começa se jogando com os pés, na corrida, termina-se jogando com a cabeça, no meio do campo, distribuindo o jogo ou, lá na frente, esperando o bom momento.
No livro A Velhice, de 1970, Simone de Beauvoir pergunta: "Em nossa sociedade a velhice aparece como uma espécie de segredo vergonhoso que é indecente falar? Há uma conspiração do silêncio em nossa sociedade?" Isto ainda se aplica ao Brasil de hoje?
Seguramente ao Brasil de 1970, sim. No Brasil de hoje, muito menos. Não no Brasil em que a grande musa da televisão é uma loira de oitenta bem comemorados anos...
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