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9 de Setembro de 2010
Notícias




Agroturismo

 Ana Paula Diniz
O turismo é hoje em dia, reconhecidamente, uma das atividades econômicas mais importantes no mundo inteiro. Como inúmeras outras, a segmentação dela é fruto de uma demanda cada vez mais exigente e sofisticada, por mais simples que possam ser as possibilidades desenvolvidas e apresentadas aos visitantes. Uma das vertentes do turismo que mais cresce atualmente no Brasil é a que está relacionada a sítios e fazendas, ambientes rurais que oferecem ao público um produto diferenciado e de qualidade. O agroturismo é uma realidade que, planejada e assessorada por profissionais competentes e implantada por proprietários empreendedores, pode ser uma importante forma de diversificação de renda para uma propriedade rural. O grande segredo está em conseguir mostrar ao turista que vem de centros urbanos um modo de vida diferente, conhecendo uma fazenda onde as atividades principais são a agricultura e a pecuária, entendendo sua história e os costumes da região e vivenciando a vida rural.

Existem diversas propriedades rurais que possuem belezas naturais pouco conhecidas em nosso país. Muitas vezes essas belezas podem se tornar atrações turísticas e gerar benefícios aos produtores e habitantes locais. O agroturismo desenvolvido em nosso país possui um caráter de integração que valoriza o meio ambiente, as tradições da região e as atividades agropecuárias. Pesquisas apontam os fatores de atração para o agroturismo: gastronomia típica, saborosa e higiênica; uma ou mais atividades produtivas que caracterizem a propriedade; a beleza natural da propriedade; atividades nas quais os hóspedes acompanham a rotina do local; contato com a cultura e a tradição local; acesso fácil; e oferta de produtos artesanais típicos do local e da região.

Em Santa Catarina, a engenheira agrônoma Thaise Guzzatti fundou a ONG Acolhida na Colônia junto com agricultores que se uniram em torno de uma questão: a necessidade de diversificação das atividades de suas propriedades rurais a fim de gerar trabalho e renda para a família, especialmente para os jovens e as mulheres, geralmente os primeiros a abandonar o campo. Esses agricultores acreditaram que havia possibilidade para que o panorama de "decadência" rural se transformasse em um cenário de possibilidades. "Eles acreditaram que o agroturismo poderia ser desenvolvido em suas propriedades com sucesso, apesar da proposta contrariar tudo que dizem os livros que falam sobre o desenvolvimento turístico, onde são necessárias boas estradas, sinalização, comunicação", afirmou Thaise.

Segundo ela, a infraestrutura básica era péssima, mas havia belezas naturais, atrativos culturais ímpares e o mais importante: todo o capital social da agricultura familiar, ou seja, o "saber fazer" centenário da produção de alimentos, o conhecimento da natureza e a cultura local, entre outros fatores. "Os agricultores tinham consciência de que era preciso pensar alternativas como o agroturismo, mas aliá-lo a outras iniciativas e estratégias, como, por exemplo, a produção de alimentos orgânicos, sem agrotóxicos. A questão ambiental sempre permeou nossas reflexões sobre novas alternativas para a propriedade rural", disse.

A Acolhida na Colônia é uma opção diferente de turismo, na qual o visitante fica hospedado na própria casa do agricultor. Passar um fim de semana em um ambiente rural familiar, longe do agito da cidade, é sempre um grande prazer e uma das recompensas mais agradáveis para o turista. Para quem gosta da ideia, Santa Catarina é o destino ideal. Atualmente, cerca de 170 famílias em 30 municípios estão prontas para acolher os visitantes interessados em vivenciar a simplicidade do cotidiano do agricultor em propriedades cadastradas na ONG.

O modelo de agroturismo catarinense é bem original. Além da hospedagem na casa dos agricultores, com mesa farta e composta, em sua maioria, por produtos orgânicos, é possível visitar agroindústrias familiares, comprar itens produzidos localmente e aproveitar a exuberância da natureza em atividades de interação com o ambiente.

Segundo Thaise Guzzatti, o agroturismo é uma estratégia para conscientizar a população urbana sobre a importância e a necessidade da agricultura familiar, ameaçada pelo êxodo rural constante e crescente, e para as questões ambientais. "A nossa estratégia é fazer as pessoas refletirem ao vivenciar o dia-a-dia da agricultura. Para os municípios rurais é uma estratégia de geração de trabalho e renda; de implantação de novos negócios; de fortalecimento e aproveitamento das belezas naturais; e de valorização do capital social local", afirmou.

Thaise ressaltou ainda que o mais interessante é que o custo para a implantação de um programa como este é mínimo. "Para os agricultores existe ainda a possibilidade de financiar a implantação das melhorias necessárias em suas propriedades rurais junto ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), do Ministério do Desenvolvimento Agrário. São financiamentos subsidiados e com grande prazo de carência. Acho que para estes municípios é a possibilidade de inversão do que vem ocorrendo. Em vez de sair, as pessoas passam a vir para eles", ponderou.

Como todo empreendedor social, Thaise gosta de dizer que a Acolhida na Colônia não é uma obra pessoal. "Agricultores, técnicos, turistas, amigos da cidade, todos têm grande parcela de mérito", afirmou. Ela já não possui um cargo formal na associação, mas ainda é responsável por levantar recursos para melhorar e expandir o projeto, pois há demanda para levar a rede para outros municípios catarinenses e até para outros estados. "Hoje, a Acolhida na Colônia é uma marca respeitada e uma de minhas atribuições é defendê-la", disse.

No ano passado, a Acolhida na Colônia recebeu um prêmio do Projeto Generosidade 2008, da Editora Globo, que revelou e difundiu ações e exemplos de gente que faz e promove o bem no Brasil. "É um reconhecimento grande do nosso trabalho. Dará visibilidade e ajudará na conquista de empresas patrocinadoras que poderão contribuir para a ampliação do projeto", afirmou Thaise. "Com os recursos, vamos estruturar nosso fundo como uma espécie de banco dos pobres, para fazer pequenos empréstimos a agricultores que queiram melhorar suas pousadas e construir novas facilidades".


Fazendas históricas buscaram soluções no agroturismo

No Estado do Rio de Janeiro, um exemplo de sucesso de projetos focados no agroturismo são as Fazendas Históricas do Vale do Café, que remetem o turista para uma viagem a um dos períodos mais importantes do Brasil, quando a moda, a arquitetura e os hábitos eram ditados pela Europa. Considerada uma das regiões mais importantes de nossa história, a região reúne construções preservadas da época dos grandes casarões dos barões do café, inclusive com as senzalas, um verdadeiro patrimonio histórico-cultural.

Distantes aproximadamente duas horas de carro do Rio de Janeiro, os municípios de Barra do Piraí, Barra Mansa, Engenheiro Paulo de Frontin, Mendes, Miguel Pereira, Paracambi, Paty do Alferes, Piraí, Rio das Flores, Valença e Vassouras oferecem a seus visitantes atividades que vão desde um sarau histórico até um café colonial que relembra os costumes da época áurea do ciclo do café, bem como várias atividades culturais e de lazer. Além do turismo histórico e cultural, a região do Vale do Café oferece atividades ligadas ao turismo de aventura, ecológico, pedagógico, religioso e, também, atrativos para os adeptos do agroturismo.

Com localização propícia e solo fértil, o Vale do Café possui paisagens naturais de rara beleza, com áreas remanescentes da Mata Atlântica. A região é recheada de inúmeros rios, cachoeiras, trilhas, locais para pesca e outros adequados para a prática de esportes radicais, como rafting, voo livre e saltos de asa delta. Cavalgadas e passeios ecológicos são outras atrações.

 
 TurisRio

O Vale do Café

A região reuniu, no espaço de pouco mais de um século, o apogeu e a ruína de um importante ciclo econômico do Brasil, ocorrido em meio à transição política para a república, o fim do modo de produção escravocrata e a crise de desenvolvimento que se configurou nas primeiras décadas do século 20. A implantação da lavoura cafeeira deixou como legado o patrimônio arquitetônico dos solares coloniais e a pecuária extensiva, desgastada pela monocultura.

O final daquele século marca o início de um ressurgimento, fruto do interesse pelas antigas fazendas que foram, em grande parte, salvas da ruína por novos proprietários que se dedicaram à recuperação desses patrimônios, motivados também pela perspectiva de investimento em um novo segmento para a economia regional, promovendo a revitalização econômica e cultural da vida e dos valores rurais historicamente predominantes na região.

A partir dos anos noventa, a criação do Instituto Preservale - uma organização do terceiro setor voltada para a preservação e o desenvolvimento sustentável dos patrimônios culturais, históricos e ambientais da Região do Vale do Paraíba - abriu uma nova possibilidade de unir preservação e desenvolvimento. A iniciativa do Instituto, que conta com fazendeiros, pesquisadores, ambientalistas, arquitetos, agentes de viagem, historiadores e apaixonados pela história e pelo patrimônio do Ciclo do Café tem estimulado e promovido a viabilização de projetos por meio da ação coordenada entre os poderes públicos, a iniciativa privada e a mobilização das comunidades locais.

"O objetivo do instituto foi revitalizar os patrimônios históricos, culturais e ambientais que são a marca exclusiva desta região. Estamos somando esforços em parcerias e compartilhando o crescimento do turismo e das economias locais, bem como o aumento do interesse acadêmico, cultural, histórico e ecológico sobre o Vale do Paraíba, o Ciclo do Café e a Mata Atlântica. As propostas do Preservale representam alternativas de desenvolvimento econômico sustentável que demandam hoje uma estratégia de intervenção de múltiplas interfaces", afirmou a diretora do Instituto, Sônia Mattos Lucas.

Segundo ela, o fato de que os proprietários abrem pessoalmente suas casas históricas à visitação turística fez com que diversos veículos de comunicação, daqui e do exterior, começassem a divulgar ainda mais a região e os roteiros. "O turismo no Vale do Café tem sido orientado por uma proposta cultural: a história e o patrimônio conjugados com uma abordagem ecológica. Isto tem trazido muitas pessoas para o interior e vem permitindo a redescoberta da paisagem e da vida rural", afirmou.

Sonia contou também que está sendo desenvolvida com a Secretaria Estadual de Cultura a elaboração de um plano estratégico para o desenvolvimento do turismo sustentável na região, que resultará em novas propostas de atuação no âmbito do turismo rural e da recuperação do patrimônio histórico e ambiental do Vale do Café.

 

 

Revista SESC Rio - Março/2009

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