"Não tive filhos; não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria". É assim que Brás Cubas, um dos personagens mais conhecidos de Machado de Assis, termina de contar sua vida. Memórias póstumas de Brás Cubas não foi seu primeiro romance, mas a obra é analisada até hoje como o marco de ruptura do escritor com o romantismo. Sua publicação representou tanto a virada estilística quanto a entrada na maturidade literária daquele que é considerado o maior escritor brasileiro.
É tempo de revisitar e redescobrir sua obra, de reavaliar a importância do mestre criador de algumas das mais celebradas figuras de nossa literatura: o defunto Brás Cubas; o atormentado Bentinho, que alguns comparam ao Otelo, de Shakespeare; o louco Quincas Borba, que aparece em mais de um romance do autor; e o Doutor Simão Bacamarte, que acaba trancafiando em um hospício quase toda a população de uma cidade.
No entanto, a mais conhecida de suas personagens é Capitu, a morena "dos olhos de ressaca" que tira o sono e o sossego do marido Bentinho, em Dom Casmurro. O menino a quem ela dá a luz seria mesmo filho dele? Capitu traiu ou não traiu? Desconfiado, Bentinho mergulha cada vez mais em si mesmo, ressentindo-se da esposa que julga adúltera. Ao leitor, Machado deixa o presente da dúvida: nenhuma passagem do romance confirma a traição nem garante que a desconfiança do marido seja totalmente infundada. Capitu é um dos maiores mistérios de nossa literatura, figura intrigante que o talento do escritor fez sobreviver ao tempo.
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Fonte: Revista SESC Rio - agosto/2008 |