Deparar com manifestações culturais no meio da rua não é só gratificante como também enriquecedor e divertido. O teatro de rua é uma dessas manifestações e vem crescendo significativamente nos últimos anos, talvez devido à ausência de palco, ao ar livre, provocando maior interação com o público. O diferencial desses espetáculos é que eles utilizam a própria plateia como ferramenta para o cenário e a encenação, uma maneira de tornar mais próximo o universo teatral e as pessoas, principalmente aquela parcela da população que não tem acesso a palcos teatrais, seja pela falta de hábito ou de recursos financeiros.
O Grupo OffSina é um dos exemplos de sucesso, provando que é possível fazer e viver de teatro de rua. Em uma fusão perfeita entre circo e teatro, o grupo, que completa 21 anos de estrada este ano, descobriu, por meio do circo, da figura do palhaço e de sua dramaturgia muito peculiar, a forma ideal para a transmissão de suas inquietações, técnicas e artísticas, a partir da necessidade de propor um novo tipo de ator, que, mesmo sem texto ou diretor para lhe dar sustentação cênica, é capaz de se manter interessante aos olhos do público. Pioneiros na iniciativa de utilizar em suas peças apenas a dramaturgia dos palhaços na construção de roteiros de circo-teatro, o casal Richard Riguetti, fundador do grupo, e Lilian Moraes divertem o público como os palhaços Café Pequeno e Currupita.
"Não sabemos se escolhemos ou se fomos escolhidos pela figura do palhaço. Ser palhaço é um estado de espírito que tem a ver com quem faz, independente da história. Não importa o que o palhaço faz, e sim quem ele é, sua essência. Ele é a menor distância entre dois seres humanos, e vai tratar exatamente da sua essência, da fragilidade, da falta de habilidade. É o cara torto, que não dá certo. Todos nós temos uma parte que não dá certo, mas, na sociedade, só podemos mostrar o que dá certo. O palhaço é aquele que mostra o que não dá certo, mas que para ele é permitido. Desta forma, você se aproxima do público de uma maneira verdadeira e veloz. Depois que se trabalha como palhaço é possível fazer qualquer personagem", conta Richard, o Café Pequeno.
Richard diz que o teatro de rua no Brasil é bastante diversificado. A linguagem das peças é compreendida com facilidade por todos, pois varia de acordo com o público. Os espetáculos têm um componente presencial muito mais acentuado do que nas peças realizadas em lugares fechados porque são feitos para as pessoas que estão passando por aquele lugar naquele momento, dia e hora. "O teatro de rua está sempre de olho no seu público, a roda se forma através da percepção do que é interessante para o espectador naquele momento, não é o que foi feito no dia anterior, no ensaio, na preparação dos atores", completa.
Os grupos de teatro de rua têm como mote de criação e produção, acima de tudo, as questões políticas, sociais e humanas, sempre antenados com o universo contemporâneo. "Eles levam em consideração as tradições, o processo histórico da construção daquela nação, daquela cultura. Procuram as brechas para defender e propagar os movimentos sociais e de transformação que são necessários no país", conclui Richard.
Segundo o palhaço Café Pequeno, tanto o figurino quanto o local da apresentação é algo muito particular de cada grupo. "Isso depende muito da linguagem de cada um. No nosso caso, como é circo e palhaço, evidentemente a roupa é muito marcante", acrescenta. Na escolha do espaço há um estudo profundo e riquíssimo envolvendo várias pessoas. Em alguns momentos, pela falta de tempo e pela correria, o estudo leva apenas poucos minutos antes da apresentação. O grupo OffSina procura conhecer muito bem o local onde vai se apresentar. "Procuramos favorecer o público, verificar se existe alguma possibilidade de conforto, ou seja, uma sombra para que o sol não incida nos olhos do espectador, por exemplo, ou se a peça é adequada para ter barulho ou não. Nós estamos há 21 anos na rua, já temos capacidade para dizer o que funciona e o que não funciona. É o olhar, é a percepção, uma maneira de sentir a cidade", afirma.
Para Richard, a horizontalidade é uma das maiores facetas do teatro de rua. O ator é igual àquela pessoa que está assistindo à peça. Quando se tem um palco, muda o nível, muda a relação, pois os artistas estão em cima e o espectador embaixo. Há uma verticalidade nessa relação. "O processo de formação pode se dar de igual para igual, não de cima para baixo. Numa relação horizontal, tanto o artista quanto o público podem falar. O diálogo é que vai ser a troca, podendo levar a uma conclusão, uma reflexão. É uma troca constante", fala ele.
Nessa relação de troca direta com o público, os artistas de rua administram bem os fatos inesperados que podem ocorrer durante o espetáculo. A mudança climática é um deles. É possível que o grupo chegue à praça com sol e, no meio do espetáculo, comece a chover. Richard conta que isto pode se tornar um parâmetro para o evento, porque só há duas coisas que podem acontecer: se o espetáculo está bom, o público fica; em caso contrário, ele vai embora. "A gente fica muito esperto em previsão do tempo. A prática é fundamental". Ele diz ainda que é preciso ter um plano B, um segundo local para que a apresentação possa ocorrer tranquilamente.
O Grupo Teatral 4 no Ato, que completa 15 anos de atividade em junho deste ano, diz que imprevistos acontecem e que eles tiram proveito de tudo. "É comum bêbados ou mendigos entrarem no meio e dividirem a cena com os atores", afirma Gilvan Balbino, fundador e diretor do grupo. Os buracos das praças, das ruas e o lixo também atrapalham a apresentação. Quando o Grupo 4 no Ato chega, não só se apresentam como limpam a praça, antes e depois do espetáculo. "Não é só chegar e se apresentar. Fazemos arte consciente, um ato político e social. As pessoas acabam ajudando a varrer e a jogar o lixo fora", relata.
Richard informa que o problema mais sério é a política pública de Estado. O governo precisa ter compreensão de que o teatro de rua não cabe nas regras de mercado e necessita de uma política pública específica para o segmento. Ele faz parte do aspecto simbólico da nação. "Nós queremos leis, editais públicos e que as informações sejam difundidas, para que todos possam participar com igualdade de condições", ele ressalta.
Respeitável público
Rede Estadual de Teatro de Rua
Revista SESC Rio - junho/200 Fotos: Augusto Paiva Guilherme Riguetti Filho Maria Quitéria Guto Muniz
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