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9 de Setembro de 2010
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Um Nordestino Universal
Um Nordestino Universal

Fotos: Luiz Jesus

Alto, voz e gestos fortes, um olhar também forte, penetrante e, ao mesmo tempo, doce e amável. Esta é a primeira impressão de um jovem senhor que, às vezes, é chamado de decifrador de brasilidades. Um jovem senhor que faz fantásticos 80 anos, repletos de realizações naquilo que, em sentido amplo, pode ser chamado de cultura.

Ariano Suassuna é escritor, dramaturgo, músico, artista plástico e professor. Idealizador do Movimento Armorial, que tem como objetivo criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste Brasileiro, é um dos mais importantes preservadores dessa cultura, aliando valores da região a seu imenso arcabouço erudito e teórico. Sua escrita reúne, ao mesmo tempo, elementos do simbolismo, do barroco e da literatura de cordel, transformando o Sertão em palco de questões humanas que se repetem em qualquer lugar do planeta.

O projeto Ariano Suassuna 80 comemora o aniversário do autor com várias manifestações, em diversos locais da cidade. Por conta disso, e após uma manhã plena de entrevistas, ele nos concedeu mais uma, exclusiva, que confirma, como sempre, todos os adjetivos que lhe são atribuídos.

SESC Rio - Você demora muito para escrever um livro. Você se acha um perfeccionista?

Ariano - Capaz de ser (risos). Tenho uma amiga que diz uma coisa muito engraçada: ¿Olhe, Ariano, eu já descobri que você não está querendo escrever esse livro, não. Você gosta é de estar escrevendo¿ (risos). É um pouco disso, também. Há um pouco de perfeccionismo. Eu pretendo, sinto a necessidade de dar o melhor de mim. E enquanto não atingir o mais que posso, fico louco. Eu tinha uma frase de São Tomás de Aquino que, por um lado, me criou um problema, mas, por outro, também me ajudou um pouco. Ele disse: ¿O que é digno de ser feito, é digno de ser bem feito¿. Não sei se faço bem feito, mas o mais bem feito que posso, isso eu procuro fazer.

SESC Rio - Você considera a sua obra popular?

Ariano - Não. Seria até uma impostura, porque o nome popular é muito difícil de falar sobre, existem várias acepções diferentes da mesma palavra. Tem gente que acha que o que é popular é o que tem uma divulgação muito grande. Se for dentro dessa linha, só existe uma forma de teatro popular, que são as novelas de televisão. Nenhum teatro, nenhuma peça de teatro, alcança nem um centésimo daquela audiência, daquele público. Mas não é nessa linha que uso a palavra popular. Eu sou um escritor de poucos livros e poucos leitores. Mas dentro, para mim, os escritores populares são os escritores do povo. Os escritores que pertencem àquilo que chamo de Quarto Estado. Vocês se lembram que na Revolução Francesa havia três classes sociais? Chamavam-se os Três Estados: Clero, Nobreza e Povo. Sendo que esse povo era uma ficção, porque, de fato, havia duas classes ali. Havia a burguesia, o proletariado e os camponeses pobres. O operariado e os camponeses pobres eram o povo. A burguesia não tinha nada de povo, mas eles chamavam de povo. É por isso que chamo o Quarto Estado, porque pra mim, é: Clero, Nobreza, Burguesia e Povo. Eu chamo o Quarto Estado, entendeu? Esse é que faz a arte popular, quer dizer, Patativa do Assaré é um poeta popular. Jota Borges, como seu grande conterrâneo, Damásio de Paula, é um grande gravador cearense. Eles são gravadores populares porque nasceram no Quarto Estado. Samico, não. Samico é como eu. Ele é um gravador erudito, que parte do popular para criar um outro tipo de arte. Olhe, esse aqui é um gravador popular. É Marcos Francisco. É uma gravura de grande qualidade, está vendo? Mas o autor é popular, porque é um homem do povo. Samico se baseia no popular, mas não é um gravador popular. Partiu do popular, se inspirou no popular, como eu, no meu teatro. Mas ele não é um popular. Mas talvez gostasse de ser, como também eu gostaria de ser, mas não sou, por circunstâncias de nascimento, de formação. Como posso ser um artista popular tendo uma formação universitária?

SESC Rio - Por ter estudado filosofia e estética, pode-se dizer que você tem também certo gosto pelo abstrato, um bom uso das categorias, que não aparece só na sua fala mas, também, nas peças.

Ariano: Tenho, sem dúvida. Mas, veja bem, eu não tenho o direito de pegar um capítulo da estética e apresentar como teatro, porque o público vai detestar. E com razão, não é?

SESC Rio - A que se deve essa afinidade da arte brasileira com o espírito barroco?

Ariano: Foi durante o século XVI que começou a se formar isso que nós chamamos de Brasil. A esse respeito, outro dia ouvi alguém dizendo que eu defendia a idéia ultrapassada de que o Brasil era só português, negro e índio. Eu nunca disse isso. Esses formaram o tronco inicial, mas isso não quer dizer que eu não veja a importância de outros grupos, de outras etnias que vieram para cá. A missão francesa, por exemplo, foi importantíssima para o Brasil. A contribuição dos outros povos europeus que vieram, a contribuição dos japoneses. Eu acho, por exemplo, que o teatro japonês é importantíssimo para a nossa busca de um teatro próprio.
 
SESC Rio - Você sempre foi muito irônico com as principais correntes do pensamento deste século, não só com o marxismo, mas com o estruturalismo e outras. É uma postura constante em sua obra?

Ariano: É que naquele tempo ninguém agüentava mais isso. Tinha uns discípulos do senhor e senhora Hegel e Heidegger que eu não agüentava. Inclusive, estavam corrompendo a língua portuguesa, um negócio de um palavreado que ninguém entende. Uma vez li um ensaio de Heidegger ¿ eu ensinei estética muito tempo, então, eu tinha obrigação ¿ chamado A Essência da Poesia. No fim do texto, a última frase: "Enfim, a essência da poesia é a poesia da essência". Sujeito chato! Eu, perder meu tempo para ler uma besteira dessas, rapaz? (risos) Vai se danar! Que cabra chato! Eu levava na graça, está entendendo? E vou dizer uma coisa: se hoje eu reescrevesse A Farsa da Boa Preguiça ¿ e eu vou reescrever ¿ eu não vou mais futricar os marxistas. Os marxistas estão tão baratinados, com o negócio da queda da União Soviética e do muro de Berlim, que não estou mais brigando com eles. O problema, na época, é que eu não aceitava o stalinismo. E eles todos, inclusive Brecht, aceitavam e calavam a boca sobre os campos de concentração da Rússia. E faziam campanha contra Camus. Sartre, mesmo, calava a boca. Agora os marxistas estão tão perturbados que já estão se tornando neoliberais, não é? Para resumir, eu não gostava de Stalin, mas eu gosto menos ainda de Yeltsin. Aquilo é um miserável, um bandido, traidor. E nem gosto de Gorbatchov, porque também traiu. Quando Gorbatchov apareceu, fiquei cheio de entusiasmo porque pensei que ele ia procurar uma forma nova de socialismo, mas quando vi Gorbatchov com Ronald Reagan, os dois juntos, num trator, eu disse: "Esse sujeito é um imbecil". E eu tinha razão. Traiu e o outro fez coisa ainda pior. Porque Stalin, você pode reclamar de tudo, mas ele não aviltava a Rússia. Ele gostava muito do país dele. Estava muito mais perto do sonho dos grandes escritores russos do século XIX do que esse bandido, o Yeltsin. Pois bem, eu nunca pensei que me acontecesse isso: estou com saudades de Stalin. No tempo dele não tinha desemprego, tinha uma previdência social de primeira, tinha altivez. A única coisa que eu peço aos dirigentes brasileiros, agora, é que arranjem, pelo menos, um pouco de vergonha na cara. Aqui no Nordeste tem um ditado que diz: "Quem muito se agacha, o fiofó lhe aparece". Na União Soviética se privilegiava a justiça em detrimento da liberdade e nos EUA se privilegiava a liberdade em detrimento da justiça. Mas a justiça não chegava ao pessoal do Afeganistão e da Mongólia, e nem a liberdade foi além da minoria branca e rica. Quer dizer, a gente tem que procurar uma coisa que ainda está na frente. A gente tem é que sonhar. Por isso, acho que utopia é uma coisa importante, o sonho é uma coisa importante. Eu não vivo sem o sonho. A gente tem que colocar o sonho de liberdade e justiça na frente e caminhar até ele. Então, eu vou começar a relembrar o que Stalin tinha de positivo. Não vou mais brigar.

SESC Rio - Sobre a influência da religião: Você mudou, do protestantismo para o catolicismo?

Ariano - Não. O pessoal diz muito isso. Não cheguei a mudar porque nunca fui protestante. Na minha família, havia uma divisão. Minha mãe era católica, a princípio, e meu pai também. Casaram na igreja e tudo. Acontece que minha mãe era profundamente apegada à mãe dela, minha avó materna. Minha avó adoeceu, teve uma doença grave, um tumor, qualquer coisa do tipo, eu não sei. Imagino hoje que seria câncer, mas, na época, não. Ela veio se operar aqui em Pernambuco, e o cirurgião que a operou era um missionário protestante. Minha avó ficou de tal maneira grata que, por influência dele, se converteu ao protestantismo. Minha mãe a acompanhou, já depois de casada. Assim, minha mãe era protestante, meu pai não. Então, mamãe nos colocou no Colégio Americano Batista, que era um colégio evangélico, protestante. Mas nunca fui protestante. Recebi instrução religiosa no colégio, mas, com a rebeldia natural da adolescência, da juventude, não aceitei. Houve um tempo em que neguei tudo. Eu não aceitava coisa nenhuma. Quando, depois daí, voltei, recebi uma influência muito grande, quando jovem, de um pensador espanhol chamado Miguel de Unamuno, um basco, uma figura ótima, de primeira ordem. Ele tem histórias ótimas. Era professor em Salamanca e os alunos eram doidos por ele. Quando estava no auge, no fim da década de 20, houve um grande movimento para separar o País Basco da Espanha. Essa briga lá continua até hoje.

SESC Rio - No sertão de sua infância, os descendentes e parentes próximos vingavam com a morte o assassinato de entes queridos. Seu pai foi assassinado por divergências políticas. Escrever A Pedra do Reino foi sua melhor vingança?
 
Ariano: Não. Foi uma forma de evitar o crime e buscar a redenção.
 
SESC Rio - A Pedra do Reino é visto como um marco da ficção nordestina, depois do ciclo regionalista da década de 30. Apesar de abordar o mundo famélico e mágico do Sertão, o livro teria uma mensagem universal?

Ariano: Eu o fiz com a intenção de ser universal. Se eu consegui, ou não, é difícil determinar, porque só o tempo vai dizer. Eu realmente acredito que o ser humano é o mesmo, em todos os lugares e em todos os tempos. Então, se, em A Pedra do Reino, consegui tocar na vida, na história do homem nordestino, estou tocando, também, nos problemas dos homens de todos os lugares do mundo.

SESC Rio - Para finalizar: 2007 é o seu ano, o ano de seus 80. Como é o Brasil dos sonhos de Ariano Suassuna?

Ariano: O Brasil que eu sonho... Eu sei que é um sonho, mas sem sonho a gente não vive... Acho que é necessário ao ser humano um sonho colocado lá na frente, para que a gente não se acomode e procure aquele ideal, aquela verdade maior. Então, o Brasil com que eu sonho seria um regime no qual a gente realizasse, pela primeira vez na história humana, essa fusão de justiça e liberdade.

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