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“Estado de Sítio”, de Albert Camus e direção de Gabriel Villela, estreia dia 4 de julho no Teatro SESC Ginástico

Elias Andreato é a Peste e Claudio Fontana é a Morte - elas chegam subitamente à cidade de Cádiz, numa rica alegoria sobre o totalitarismo escrita por Albert Camus. No elenco, Chico Carvalho, Rosana Stavis, e outros nove atores encenam os horrores do poder arbitrário.


publicado em 03-07-19

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Após os maus presságios pela passagem de um cometa, os habitantes de Cádiz, na Espanha, passam a ser governados pela Peste, que depõe um governo reacionário e institui um poder arbitrário por meio da ameaça de morte. Ela instaura o Estado de Sítio e cria um regime burocrático, esvaziado de sentido e dominado pelo medo. Uma cidade sitiada e uma população dividida. A vida dos cidadãos é submetida ao império da Peste e de sua Secretária, a Morte, de modo que o sofrimento e o desespero se tornam banais. No meio desse cenário desolador e aterrador haveria espaço para uma "revolta" estimulada pelo amor aos seres humanos e pela liberdade? Para se libertar da Peste será preciso resistir ao medo que se tem dela acreditando que, assim como a aparição do cometa, a situação instaurada é uma força histórica e passageira, e que o povo sempre detém o poder eterno.

Essa é história que nos conta a peça “Estado de Sítio”, do escritor, filósofo e dramaturgo argelino Albert Camus (1913-1960), com direção de Gabriel Villela, que estreia no Rio dia 04 de julho no Teatro SESC Ginástico. No elenco, Elias Andreato, Claudio Fontana, Chico Carvalho, Rosana Stavis, Nábia Vilela, Leonardo Ventura, Pedro Inoue, Arthur Faustino, André Hendges, Rogério Romera, Jonatan Harold, Nathan Milléo Gualda e Zé Gui Bueno. 

Escrita em 1948, a peça se passa em uma pequena cidade litorânea, assolada pela peste e dominada pelo medo. Para Camus, o medo era o mal do século XX e, por isso, ele o utiliza como o fio condutor desta obra, que, para muitos críticos, é uma alegoria da ocupação, da ditadura e do totalitarismo.

Ao escrever “Estado de Sítio”, Albert Camus declarou que pretendia “atacar frontalmente um tipo de sociedade política que se organiza, à direita ou à esquerda, de modo totalitário. Esta peça toma o partido do indivíduo, da natureza humana naquilo que ela possui de mais nobre, o amor, enfim contra as abstrações e os terrores de um regime autoritário” (resposta de Camus ao crítico Gabriel Marcel de Les Nouvelles Littéraires, publicada na edição dos Essais de Camus, 1965).

A escolha de Cádiz (Espanha) como cenário de “Estado de Sítio” não é nada casual. Apesar da memória recente do nazismo e do fascismo na Europa, o regime fascista de Franco, extremamente violento, ainda sobreviveria na Espanha por quase quatro décadas (1938-1973), uma mácula na história de uma Europa que já começava a avançar na transição para a democracia liberal. Escolhendo Cádiz, uma cidade brutal e longamente ocupada, a pestilência ganha transparência no seu potencial alegórico e se tornam mais eficazes as alusões a torres de vigilância, campos de concentração, deportações, torturas e... atos de resistência. Se na peça é a coragem que triunfa sobre o mal, vale lembrar que Camus nunca foi um pacifista ingênuo – ele sabia que a resistência exigia sacrifícios, algumas vezes sobre-humanos. 

Mesmo que o imenso sucesso de “O estrangeiro” (1942) já tivesse alçado o jovem argelino Albert Camus à consagração, não deixa de ser surpreendente que depois de tão poucos anos, logo após a publicação de “A peste”, em 1947, ele tenha sido cogitado para o Nobel de Literatura, pelo qual, aliás, ele só foi condecorado dez anos depois. “A peste” é um romance primoroso que aborda o flagelo do totalitarismo simbolizado por uma epidemia que se espalha em uma vila marítima. A semelhança com “Estado de Sítio” é tamanha que, apesar da insistente negativa de Camus, parece difícil não entender essa peça como uma adaptação do romance. Alguns papeis secundários teriam sido simplificados, o posicionamento face à Igreja se tornado mais duro, o sarcasmo potencializado na figura do personagem Nada (Chico Carvalho) e o autoritarismo ganhado um viés alegórico sobretudo com os personagens da Peste (Elias Andreato) e sua Secretária, a Morte (Claudio Fontana). Ainda assim, ambas obras têm a mesma dinâmica (a epidemia vem da periferia para o centro da cidade, sendo o mar a única escapatória possível), tratam-se de tragédias de separação - de Diego (Pedro Inoue) e Vitória (Nábia Vilela) -  e o medo é o fio condutor de uma e de outra.

Serviço:

Estado de Sítio

Teatro Sesc Ginástico

04 a 28 de julho

5ª a sábado, 19h. Domingo 18h | 14 anos | GRÁTIS (PCG), R$ 7,50 (habilitado Sesc), R$ 15 (meia-entrada), R$ 30.

Entrada solidária: 50% de desconto mediante a doação de 1 kg de alimento não perecível, que será revertido para o projeto Mesa Brasil.