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‘Gota D’Água {Preta}’ estreia no Sesc Ginástico dia 16 de outubro

Nova versão do texto Gota D’Água, vista por mais de 16 mil pessoas em cinco temporadas na cidade de São Paulo, chega ao Rio de Janeiro. A montagem realça a realidade negra, a discussão social e de classes e o protagonismo da mulher preta


publicado em 04-10-19

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A peça “Gota D’Água {Preta}”, montagem do premiado ator, diretor e dramaturgo Jé Oliveira, fundador do Coletivo Negro, de São Paulo, estreia no Rio de Janeiro dia 16 de outubro. O espetáculo, que fica em cartaz no Sesc Ginástico até 27 de outubro, é uma versão contemporânea de “Gota D'Água: Uma Tragédia Brasileira”, escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes em 1975, e conta com um elenco formado predominantemente por artistas negros. A obra mostra a versatilidade de Jé Oliveira ao transitar entre o Rap e a MPB, já que seu último trabalho, a peça-show “Farinha com Açúcar”, que rodou o país por três anos, homenageou os Racionais MC’s. 

O espetáculo recebeu indicações em três importantes prêmios nacionais: APCA (Melhor Direção e Espetáculo), Shell (Inovaçao) e Aplauso Brasil (Melhor Espetáculo Musical e Melhor Atriz Coadjuvante). Inspirado na tragédia “Medeia”, de Eurípedes, “Gota D’Água {Preta}” traz como personagem principal Joana, mulher madura, sofrida, moradora de um conjunto habitacional. Jasão, seu ex-marido, é um jovem vigoroso, sambista que desponta para o sucesso com a composição da canção que dá nome à peça. Agora ele é noivo de Alma, filha de Creonte, corruptor por excelência e o detentor do poder econômico e das casas, a Vila do Meio-dia, local onde antes morou com Joana e os filhos. Se em “Medeia” havia reis e feiticeiros, na tragédia brasileira “Gota D’Água {Preta}” há pobres e macumbeiros, além de um coro negro, em alusão ao grego.

De modo inédito na história do teatro brasileiro Joana, interpretada pela cantora e atriz Juçara Marçal (Metá Metá), e Jasão, vivido por Jé Oliveira, são negros. A escolha política-estética do diretor traz a força da musicalidade ancestral e a influência das religiões de matriz africana.

“É como se estivéssemos realizando a coerência que a peça sempre pediu e até hoje não foi realizada”, destaca Jé Oliveira. “A personagem é pobre e é da Umbanda. Tudo leva a crer, pelo contexto histórico, social e racial do país, que essa personagem é preta. Estamos realizando o que a peça insinua. Estamos de fato enegrecendo a obra de Chico Buarque e concretizando o que ele propõe.”

A montagem não busca apenas uma reparação histórica para diminuir um hiato sobre a presença negra em papéis relevantes na dramaturgia nacional, mas sobretudo, propõe uma re-atualização, com base na coerência, ainda não realizada por nenhuma montagem, do clássico drama brasiliano.

“Estamos discutindo traição de classe e de raça”, diz Jé, citando a metáfora da traição conjugal. “Ele troca Joana por uma mulher mais nova, então discutimos também o feminismo. Jasão também é preto e com ele debatemos a ascensão social e a legitimidade ética disso.”

Para Juçara, Joana representa a mulher oprimida desde a formação do Brasil. O grito oprimido desta camada da sociedade. As relações humanas servem de pretexto para questionar essas posições sociais, como se cada um de representasse um lugar, um grupo. “Ela é a mulher que foi violentada, agredida. A pessoa sem voz que quer se vingar e não sabe como”, explica a atriz.

“Quando o Jé resolveu montar ‘Gota D’Água’ mais preta a proposta foi trazer o universo da periferia para a cena. Com os acentos, não só os percussivos, mas os da cultura de periferia mesmo”, aponta o músico Fernando Alabê.

O sagrado também está presente na música. “Com pessoas da comunidade negra é natural que as religiões de matriz africana estejam presentes. Tem canto de candomblé, de umbanda e o jongo – dança de roda de origem africana com acompanhamento de tambores – serve de base. Tentamos trazer para a peça a maneira que o negro entende sua divindade”, realça Juçara.

O diretor musical William Guedes propôs uma instrumentação de saxofone somada a DJ, percussão, guitarra, violão e cavaco. “Com isso, temos uma estrutura musical que desfolcloriza a musicalidade de periferia, a musicalidade negra, que é o cerne desta peça”, observa Alabê.

O cenário também traz a representação da religiosidade afro-brasileira na concepção do artista Julio Dojczar, do coletivo casadalapa. Painéis simbolizando os Orixás e elementos de cena como a imagem de Ogum / São Jorge compõem o palco que remonta o período setentista em uma montagem que, assim como a encenação, busca a percepção do todo pela parte. As representações não são realistas mas induzem a criação imagética do espaço de cena.

Além de Jé Oliveira e Juçara Marçal a montagem traz ainda em cena a atriz, diretora e dançarina Aysha Nascimento (Coletivo Negro), a atriz e MC Dani Nega, a atriz e bailarina Marina Esteves, o ator Mateus Sousa, o ator, diretor e artista-educador Ícaro Rodrigues,  o ator e diretor Rodrigo Mercadante (Cia do Tijolo) e o ator, dramaturgo e professor Salloma Salomão.

A direção musical é de William Guedes,  da Cia. do Tijolo, e a música é executada ao vivo por DJ Tano, do Záfrica Brasil, nas pick-ups, Fernando Alabê na percussão, Suka Figueiredo no saxofone e Gabriel Longuitano na guitarra, violão, cavaco e voz. O cenário é assinado por Julio Dojczar, da casadalapa, e a luz é um projeto do light designer Camilo Bonfanti. O design de som é de Eder Bobb e Felipe Malta. Eder Lopes assina os figurinos e a assistência de direção. A produção é de Janaína Grasso.

Serviço

Quando | de 16 até 27 de outubro, de quarta a sexta às 19h e sábado e domingo às 17h

Onde | Sesc Ginástico | Rua Graça Aranha 187 Centro 

Classificação | 14 anos

Duração | 3h40 min  – inclui intervalo de 10 minutos entre os atos.

Ingressos | R$ 30 | R$ 15 e R$7,50 (Cartão Sesc)

Informações | 2279.4027