A memória e suas dimensões pessoal e social dão o tom do IV Seminário Internacional de Mediação Cultural do Sesc-RJ

Evento reuniu nomes da museologia e artistas visuais em dois painéis

A memória, suas mais diversas leituras e as diferentes abordagens que museus e instituições culturais promovem dela são o fio condutor do IV Seminário Internacional de Mediação Cultural do Sesc-RJ que teve início na tarde desta terça-feira, 11 de novembro, no auditório Fecomércio do Arte Sesc, no Flamengo, Rio de Janeiro.

Ao longo de toda a tarde, dois painéis reuniram oito convidados, pesquisadores e agentes culturais, que trouxeram olhares, reflexões e vivências de gestão museal e de produção artística.

Na abertura do evento, às 14h, a Gerente do Espaço Cultural Arte Sesc, Kely Pinheiro, agradeceu ao presidente do Sesc RJ, Antonio Florencio de Queiroz Junior, à Diretora Regional Regina Pinho, à Gerente de Cultura, Christine Braga, ao Analista de Artes Visuais e Arte Educação, Felipe Capello, ao Analista de Artes Visuais, Wesley Ribeiro, entre outras gerências do Sesc RJ e do Arte Sesc que possibilitaram a realização do evento. “Mais do que aproximar pessoas e obras, a mediação é um processo de encontro e criação”, definiu Pinheiro.

Subindo ao palco em seguida, Felipe Capello teorizou sobre o eixo temático do evento: “A mediação no campo da cultura é um gesto de abertura ao outro que reconhece no encontro a possibilidade de transformação mútua ao estabelecer pontes”.

Na sequência, às 14h30, teve início a primeira mesa do dia,  “Mediação Cultural e Novas Perspectivas para a Memória”, com falas de Alan Trampe Torrejón, membro fundador e atual presidente do Programa Ibermuseus, do Chile; Lucas Lara, diretor de museologia do Museu da Pessoa, de São Paulo; e Silvana Marcelina, pesquisadora no arquivo do fotógrafo Januário Garcia, do Instituto Moreira Salles. A mesa teve mediação de Priscila Zurita, da Gerência de Museologia do Museu de Arte do Rio.

Zurita abriu o painel, lembrando que “Museus não são apenas lugares de memórias e do passado: eles precisam provocar perguntas e abrir espaços para novas vozes”. A museóloga destacou, ainda, que em exposições, o que está exposto e pode ser visto tem tanta importância quanto o que é invisível, e que a mediação cultural, nesse contexto, “é fundamental, já que por meio dos museus  podemos abrir o espaço para o diálogo, a escuta e o compartilhamento de saberes”.

Em sua fala, Lucas Lara, há 15 anos no Museu da Pessoa, contou sobre a experiência de um museu virtual e colaborativo, em que o acervo é composto por mais de 20 mil histórias de vidas. O diretor pontuou que os desafios da mediação também são parte da rotina das instituições virtuais: “Como todos os museus, o nosso também enfrenta questões e desafios, porque embora não precise sair da sua casa e pegar um ônibus para visitar, o tempo que você tem para entrar no Museu da Pessoa é o mesmo tempo que você tem para acessar a Netflix ou jogar no seu celular” – o que leva a mediação a pensar sempre em estratégias para acessar públicos diferentes.

Lara detalhou que o museu lançado em 1991 tem uma equipe de 40 pessoas espalhadas por 19 estados do Brasil, além de outros países, e que a programação da instituição é bienal, contando com curadores convidados. No biênio 2024/25, quem assina a curadoria é o ambientalista e filósofo Ailton Krenak: “Krenak olhou para o acervo de histórias do museu e fez uma curadoria com o tema ‘Você já escutou a terra?’ e selecionou as histórias de vida que narram também sobre elementos da natureza que faziam parte das histórias tanto quanto pessoas”.

O gestor encerrou sua fala dizendo que a prática do Museu da Pessoa é pensar a mediação como “uma ética da escuta”: “Falamos muito em construir pontes, mas se não escutarmos as pessoas e as comunidades, podemos construir pontes até mesmo em territórios que já têm suas próprias pontes” – ilustrou.

Embora tenha grande parte de seu acervo também digitalizado, o Instituto Moreira Salles, entidade cultural de atuação da próxima palestrante, Silvana Marcelina dos Santos, tem estrutura física em Poços de Caldas (MG), onde foi criado, no Rio de Janeiro e em São Paulo (SP).

Dando igual importância ao exercício da escuta, Marcelina analisou a troca das entidades culturais com a comunidade: “A instituição precisa se mostrar porosa” – resumiu. Como exemplo dessa porosidade, a organizadora do arquivo do fotógrafo Januário Garcia lembrou dois acontecimentos, em 2019, “fundamentais para a instituição se repensar e revisar”: um evento da área de Literatura criticado pela sociedade por não prever a presença de poetas negros, levando o IMS a repensar a curadoria; e, no mesmo ano, a exposição do quadrinista J. Carlos, “que, como muitos homens do seu tempo, tem obras com conteúdo muito racista”.

Os episódios levaram a equipe do IMS a repensar a mediação, e teve como desdobramentos, por exemplo, a exposição “Ocupação Pequenas Áfricas de São Paulo”,  para pensar como a população negra se articula com um acervo como o do IMS; e o trabalho de investigação do pesquisador e autor Yamalui Kuikuro na grande exposição “Xingu: Contatos”, do IMS Paulista, dialogada com os povos do Xingu.

Yamalui fez o trabalho de coletar 500 imagens produzidas pelo fotógrafo Henri Ballot na expedição no Xingu. Isso permitiu recontar a narrativa do contato dos povos não indígenas com os indígenas, agora pelo ponto de vista destes últimos.

Fechando a mesa, o chileno Alan Trampe Torrejón, fundador e atual presidete do Programa Ibermuseus, do Chile, trouxe reflexões menos particulares e mais amplas sobre museologia, mediação e memória, alimentadas ao longo de 37 anos em que trabalhou “com tudo dentro de museus”, como disse.

Na explanação, Torrejón localizou o que chamou de “mudança de paradigmas” para os museus nos anos 1960, quando “deixamos de falar de um prédio e começamos a falar de territórios, deixamos de falar de coleção e começamos a falar de patrimônios, deixamos de falar de visitantes e começamos a falar de comunidade” – ponderou.

Entre os desafios das instituições museais, o especialista apontou “Há uma frase atribuída a Marco Polo que diz ‘As cidades tomam a forma dos desertos que as cercam’. Os museus precisam tomar a forma do território que os circundam” – comparou.

Na era da informação digital, para se manter atual os museus precisam pensar na mediação da informação: “O manejo da informação é importantíssimo, um museu precisa trabalhar com informação de ponta. Antes, um aluno ia ao museu aprender a biografia de uma personalidade, anotar os dados. Hoje ninguém precisa disso, qualquer um pega um telefone e tem acesso a dados. Então o museu precisa motivar a saber mais”. E alertou: “Se um museu não vai além de seus muros para o território, se torna uma ilha”.

Após um breve intervalo para o café, às 17h teve início a segunda e última mesa do dia, “Experiências Artísticas Contemporâneas e a Memória como Disparador de Novas Narrativas”, reunindo as falas de Aline Mota, artista visual fluminense; Edgar Xakriabá, artista e fotógrafo do povo Xakriabá; e Fernando Sawaya, artista urbano e muralista carioca que tem trabalhos no Brasil e outros nove países.

Carolina Rodrigues, curadora geral do Museu Bispo do Rosário, mediou a mesa, que abriu apontando convergências entre as produções dos artistas convidados: “de formas muito diversas e com materialidades, abordagens e suportes diversos, esses artistas trabalham pela preservação da memória de vozes historicamente silenciadas, ampliando a visibilidade de narrativas tão relevantes para que possamos fabular futuros possíveis” – avaliou.

Abrindo o debate, Fernando Sawaya – antes conhecido pelo codinome Cazé – se emocionou ao mencionar suas origens, como homem negro filho de mãe solo e, apesar de criado em Copacabana, bairro de classe média alta, lembrou o dia a dia envolto em situações comuns a populações periféricas, como o trabalho informal desde a adolescência, o estudo em uma escola pública do subúrbio, as várias horas diárias nos ônibus e, mais tarde, a vivência em um projeto social de arte educação em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense.

As vivências, incomuns para os vizinhos da Zona Sul, afiaram o olhar de Fernando para realidades apagadas da cidade: “essa travessia diária pela cidade foi fundamental na minha narrativa artística atual, porque só quem passa duas horas em um transporte público entende a dificuldade de se deslocar pela cidade – e aí a gente já está falando de racismo ambiental”, pontuou.

Em seus longos trajetos, Sawaya passou a identificar padrões na distribuição dos corpos pela cidade, repertório que, em 2017, passa a integrar mais abertamente sua arte urbana, em murais de grafite que retratam pessoas negras e trabalhadoras, dando status de monumento a figuras historicamente silenciadas.

Essa percepção o leva a desenvolver o projeto “Cartografia preta da cidade”, que abarca mais de 70 murais pelo Rio e por São Paulo, em busca de figuras pretas pela cidade, entendendo que esses territórios também pertencem a pessoas negras e indígenas.

A partir de uma viagem ao Peru, Fernando começa a refletir como o corpo negro e suas relações com o trabalho e a cidade se repetem ao longo de países da América Latina, cria murais monumentalizando essas pessoas em países como Colômbia, Equador e Venezuela – chegando à Europa, com um grande painel retratando imigrantes muçulmanos em Paris.

Pensando a memória, o carioca teorizou: “A cidade é uma memória efêmera que deixa vestígios”, e, longe de aceitar com passividade esse status, provocou: “Qual é a memória que herdamos do colonizador? Trabalho informal, gentrificação, exploração, racismo ambiental”.

A próxima fala foi da artista visual e escritora Aline Mota. Nascida em Niterói, Mota iniciou sua fala endossando as observações de Fernando sobre o olhar de quem passa horas no transporte público.

Com uma produção que vai da performance ao cinema, passando pela literatura, a artista falou da importância da memória em sua obra, já que foi só depois de 15 anos como continuista de cinema que, ao ouvir um segredo contado por sua avó quase centenária, Mota decidiu filmar seu primeiro curta, “Ponte sobre abismos”, de 2017.

Além do curta e de outros filmes sobre a família, Mota escreveu ainda dois livros – “A água é uma máquina do tempo” e “Filha natural”, em que conta as histórias de duas antepassadas: uma avó da qual só tinha o primeiro nome e a informação de que viveu escravizada em Vassouras (RJ), e uma tataravó da qual encontrou nome e sobrenome em pesquisas online. Sobre o aspecto da memória das pessoas negras, se posicionou:

“Eu queria contar para que sempre tentam desencorajar a gente, famílias negras e indígenas, dizendo que não vamos encontrar documentação sobre as nossas famílias. Que ‘os documentos da escravidão foram queimados’, que ‘teve a Lei do Ruy Barbosa’. Queria desfazer esse mito: isso não é verdade, acho que foi mais uma dessas leis que não pegam, e qualquer jornal do século 19 é um documento sobre a escravidão. Inventários, testamentos dessa época, são sobre a escravidão, então é possível encontrar esses parentes” – concluiu.

Fechando as falas da mesa, o artista e fotógrafo indígena Edgard Xakriabá, do povo Xakriabá, de Minas Gerais, abordou temas como território, imagem, e as diferenças na conceituação de povos indígenas e não indígenas a respeito da imagem, da captura dessa imagem pela fotografia, e do sonho.

Analisando uma clássica gravura de Jean-Baptiste Debret, “Caboclo”, de 1820, que retrata um homem indígena deitado no chão e utilizando os pés para preparar o disparo de um arco e flecha, traçou um paralelo com uma foto recente de um indígena deitado no chão empunhando sua câmera, e comparou: “a câmara como arco, a imagem como flecha”.

Para demarcar a diferença da etnovisão, ou visão de um povo, sobre a importância da imagem e da fotografia, analisou a palavra “Hêmba”, conceito que quer dizer ao mesmo tempo espírito, alma e imagem, e explicou: [para alguns povos indígenas,] “quando se fotografa alguém é como se estivesse roubando parte da sua alma”.

Em relação aos museus como guardiões das memórias dos povos, foi taxativo: “Precisamos pensar o museu de fora para dentro, o museu precisa ir para as favelas, regiões quilombolas, barcos, para se transformar em espaços de memória e levar essa memória para perto das pessoas”.

O IV Seminário Internacional de Mediação Cultural do Sesc RJ termina nesta quarta-feira, 12 de novembro.

 

 

 

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