Grandes damas do teatro brasileiro se reúnem pela primeira vez em cena na comédia musical “As Marias de Belém do Pará – Somos Todas Marias”

Grandes damas do teatro brasileiro se reúnem pela primeira vez em cena na comédia musical "As Marias de Belém do Pará - Somos Todas Marias"

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Há encontros que levam uma vida inteira para acontecer. Depois de décadas dividindo estreias, camarins e os bastidores da história do teatro brasileiro, seis mulheres com trajetórias que, se somadas, atravessam mais de dois séculos, sobem juntas ao palco pela primeira vez. A partir de 14 de agosto, o Ministério da Cultura, Itaú e Sesc RJ apresentam “As Marias de Belém do Pará – Somos Todos Marias”, espetáculo criado, escrito e dirigido por Eduardo Barata, com colaboração dramaturgia e codireção de Elaine Moreira. O musical – que já nasce histórico – transforma a biografia de Bete Mendes, Ítala Nandi, Ivone Hoffmann, Maria Pompeu, Mariah da Penha e Veluma em matéria-prima da dramaturgia, prestando uma homenagem inédita a este grande mosaico de gerações, experiências e linguagens artísticas fundamentais para os pilares da cultura brasileira. Haverá ainda homenagens a Joana Fomm e Hildegard Angel, que também subirão ao palco em dias específicos durante a temporada.

Mais do que uma narrativa documental, a montagem celebra o tempo vivido, a potência feminina e os costumes e tradições da Região Norte. “Cada uma dessas mulheres carrega no corpo, na voz e na memória as marcas do tempo. Não vejo isso como fragilidade, mas como trajetória. Quero revelar a humanidade que há nisso. Também existe um encontro entre gerações, porque vamos ter artistas mais jovens em cena com elas”, celebra o diretor, Eduardo Barata, que colocará em cena mais de 20 artistas junto às atrizes, com idades que vão de 23 a 90 anos.

Para o elenco, a montagem corrige uma ironia do destino. “Passamos 60 anos nos encontrando em festas, estreias, velórios e restaurantes, mas nunca tínhamos atuado juntas. Está sendo uma experiência transformadora e totalmente nova”, delicia-se Ivone Hoffmann.

Da ancestralidade no Marajó ao palco carioca
Além de reverenciar a história do teatro, o espetáculo é movido por uma forte ligação afetiva de Eduardo Barata com a Região Norte. A costura poética da peça — que se passa no fictício Condomínio Galharufa, em Copacabana, mas propõe uma viagem dessas mulheres a Belém do Pará por meio de festas populares, fé, cultura, imaginação e música — é fruto da própria história familiar do encenador.

“Este trabalho é uma homenagem à minha ancestralidade paraense. Meu avô materno era ribeirinho da Ilha de Marajó, um caboclo que carregava toda essa força do Norte e meu avô paterno era de Belém. Desde criança eu sonhava conhecer Belém do Pará. Enquanto muita gente queria ir para a Disney, eu queria conhecer o Pará. Essa ligação atravessa profundamente o espetáculo”, revela Barata.

E para embalar essa história nada melhor do que a música regional, encenada no palco pelo grupo Carimbaby, fundado por Barbara Vento, acompanhadas por Camila Gonzalez e Maria Luisá Tonácio. “Trabalho com os ritmos da Amazónia há muitos anos aqui no Rio. A peça traz essa musicalidade o tempo inteiro, esse universo do Pará com suas danças e ritmos, o carimbó, a lambada, o lundu. Nós somos de Altamira, do centro-oeste do Pará, e trazemos essa força da mulher paraense, o corpo caboclo da Amazônia”, diz Bárbara.

O diretor musical Marco André reforça esse espírito amazônico com a seleção do repertório junto com Eduardo Barata, que escolheu a maior parte das canções. “Este espetáculo me aproxima novamente de tudo o que fiz ao longo dos 42 anos da minha vida artística por meio do cancioneiro paraense, que sempre fez parte da minha identidade. Muitos dos artistas presentes na trilha sonora fazem parte da minha própria história. Para mim, como paraense, este musical me faz voltar a Belém depois de 40 anos. É como estar em casa de novo”, diz Marco André, que produziu o primeiro disco de Dona Onete e fez parceria com ela em composições. Dividiu o palco com Fafá de Belém, teve uma música gravada por Gaby Amarantos num disco do Trio Manari e também produziu para Paulo André Barata, um dos músicos mais prestigiados da região norte que tem canções presentes na peça.

O figurino assinado por Rute Alves, porta-bandeira vencedora do Estandarte de Ouro 2026 com a escola campeã Unidos do Viradouro, também traduz a cultura e a religiosidade paraense. “Pesquisei muito sobre os elementos do Círio, as cores e as flores do Pará. Usei muita palha, imagens que remetem à bandeira e à Nossa Senhora de Nazaré. Criei uma estampa especial com imagens da cerâmica marajoara para o vestido da Duda Barata, que vive a neta da personagem de Bete Mendes”, conta Rute.

E não é só no figurino que tem uma pitada de carnaval. O cenário criado por Rostand Albuquerque traz partes da escola de samba Grande Rio, que homenageou o Pará em 2025. Os barcos de miriti, que fizeram sucesso na avenida, compõem parte do cenário da peça. “Vamos trazer o Pará para palco, a bandeira do estado, o andor e o manto da Nossa Senhora de Nazaré. Vai ter bastante cor, uma floresta cenográfica de tecido”, define o cenógrafo.

Essa força da cultura amazônica e da religiosidade popular serve de moldura para que as atrizes coloquem suas próprias vivências em movimento. Ítala Nandi celebra o prazer de voltar à cena homenageando tanto seu eterno lado transgressor como o talento de suas colegas contemporâneas. Maria Pompeu, que retorna aos palcos após um hiato de dez anos, usa o humor para refletir sobre o envelhecimento e a modernidade, enquanto Bete Mendes, na pele de uma síndica rabugenta e divertida, exalta o frescor que só a experiência teatral proporciona: “É aquela coisa viva, o entrosamento de todos, cada dia é um espetáculo diferente. Sou fã de todas do elenco”.

Mosaico de gerações e processo colaborativo
O espetáculo também promove o diálogo entre diferentes escolas. Mariah da Penha, que se autointitula “a caçula das Marias”, pontua a importância de sua presença na montagem: “Trago minha vivência no teatro de rua e no teatro popular, como moradora da Baixada, colocando a verve da mulher negra neste cenário”. Já Veluma experimenta um desabrochar artístico. Vinda das passarelas, ela conta que o diretor tem sido fundamental nesse processo: “O Barata pediu justamente para eu levar o meu temperamento para a cena. Sinto que uma atriz está nascendo em mim”.

O clima de cumplicidade nos ensaios é um dos pontos altos destacados por todas elas. As atrizes são unânimes em elogiar a escuta e a generosidade de Eduardo Barata na condução do projeto. “Ele soube nos reunir de uma maneira afetiva e maravilhosa. O espetáculo que ele escreveu é sincero, é o nosso jeito de ser”, define Bete Mendes. Ítala Nandi endossa a condução do diretor, comparando sua capacidade de surpreender à de grandes nomes da cena nacional: “Ele tem uma visão muito própria, autêntica. Em alguns momentos, sua criatividade me lembra muito o Zé Celso (Martinez Corrêa) pela capacidade de nos desafiar”.

Ao unir diferentes gerações e estéticas em torno da memória coletiva e da riqueza cultural do Pará, “As Marias de Belém do Pará – Somos Todos Marias” reafirma o teatro como um território de afeto, reverência e reinvenção.

SOBRE O ELENCO

Bete Mendes
Atriz e ativista política de imenso destaque no Brasil. Iniciou sua carreira artística nos anos 1960, integrando o elenco de novelas históricas como Beto Rockfeller. Além de sua marcante atuação no teatro, cinema e televisão (com papéis inesquecíveis em obras como O Rei do Gado e Tieta), Bete teve um papel fundamental na luta pela democracia. Posteriormente, seguiu carreira política, elegendo-se deputada federal e mantendo sempre forte seu compromisso com as causas sociais e os direitos humanos. No teatro, Bete trabalhou em montagens como A Cozinha, direção de Antunes Filho, Gota d’Água, direção de Gianni Ratto, e A Morte de Danton, direção de Aderbal Freire Filho.

Ítala NandiÍtala Nandi
Uma das atrizes e diretoras mais vanguardistas do teatro brasileiro. Foi cofundadora, ao lado de José Celso Martinez Corrêa, do histórico Teatro Oficina, participando ativamente da revolução cultural do movimento Tropicalista nos anos 1960 e 1970. Ítala protagonizou o primeiro nu do teatro brasileiro na lendária montagem de O Rei da Vela. Com uma carreira brilhante no cinema (trabalhou com diretores como Ruy Guerra e Arnaldo Jabor) e na televisão, Ítala também se dedica à escrita, à direção teatral e ao ensino das artes cênicas.

Ivone Hoffmann
Atriz veterana com uma sólida e respeitada trajetória dedicada majoritariamente ao teatro, mas com participações marcantes no cinema e na televisão. Conhecida por sua versatilidade e refinamento técnico, Ivone transitou com maestria pelo teatro clássico e contemporâneo ao longo de décadas – esteve inclusive no elenco da montagem histórica de “Hair” em 1969. Na TV, integrou o elenco de diversas novelas e minisséries (como A Muralha e Porto dos Milagres), sendo uma presença constante e admirada no cenário artístico e na formação de novas gerações de atores.

Maria Pompeu
Atriz e ex-modelo, Maria Pompeu iniciou sua trajetória artística nos anos 1960. Com uma presença cênica marcante, construiu uma carreira prolífica no teatro, no cinema (especialmente na era do Cinema Novo e das pornochanchadas) e na televisão, onde participou de dezenas de novelas e programas humorísticos na Rede Globo e na TV Manchete. Além de atuar, sempre foi uma defensora ativa da classe artística, tendo atuado fortemente em sindicatos e associações de atores no Rio de Janeiro.

Mariah da Penha
Atriz com mais de quatro décadas de carreira, amplamente reconhecida por seu carisma e talento na televisão e no teatro. Começou a ganhar grande projeção na Rede Globo nos anos 1980, participando de novelas de grande sucesso como Dona Beija e A Gata Comeu. Ao longo dos anos, tornou-se uma figura familiar e querida do público brasileiro, acumulando papéis marcantes em produções como Suave Veneno, A Diarista e Aquele Beijo, destacando-se tanto na comédia quanto no drama.

VelumaVeluma
Nome artístico de Vera Lúcia Maria, foi uma das maiores e mais icônicas supermodelos brasileiras das décadas de 1970 e 1980. Com sua elegância e traços marcantes, Veluma rompeu barreiras no mercado da moda nacional e internacional, tornando-se a primeira modelo negra a assumir a beleza dos cabelos black power e adereços da cultura afro-brasileira. Ganhou imenso destaque no país e foi musa de grandes estilistas como Clodovil e Dener. Após brilhar nas passarelas e capas de revista, também fez incursões na televisão e no teatro, consolidando seu nome na história cultural brasileira.

SOBRE AS PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS

Hildegard Angel
É uma das vozes mais respeitadas e influentes do jornalismo brasileiro. Filha da estilista Zuzu Angel e irmã de Stuart Angel, assassinado pela ditadura militar, transformou sua trajetória pessoal em um compromisso permanente com a defesa da democracia, da memória e dos direitos humanos. Com uma carreira marcante como colunista do Jornal do Brasil e de O Globo, Hildegard tornou-se referência pela independência, sensibilidade e firmeza com que acompanhou os grandes acontecimentos políticos, culturais e sociais do país. No teatro, Hildegard trabalhou com diretores consagrados como José Celso Martinez Corrêa, em Gracias Señor, Amir Haddad, em A Dama do Camarote, e João Bethencourt, em Bonifácio Bilhões.

Joanna Fomm
É dona de uma das carreiras mais brilhantes da televisão, do teatro e do cinema nacional. Ao longo de décadas, deu vida a personagens inesquecíveis, como a elegante Yolanda Pratini, de Dancin’ Days, e conquistou o público de forma definitiva ao interpretar a inesquecível Perpétua, de Tieta — uma das maiores e mais marcantes vilãs da televisão brasileira. O palco, contudo, foi sempre seu solo sagrado. Joana estreou no icônico Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 1958 na peça Paixão na Terra, contracenando com veteranos como Nicette Bruno e Paulo Goulart. Nos anos 1960, foi para São Paulo e integrou o lendário Teatro de Arena. Sob a direção de Augusto Boal e ao lado de Juca de Oliveira, destacou-se no clássico O Melhor Juiz, o Rei (1963). Em 1964, deu vida a uma emblemática anciã nordestina em O Filho do Cão, de Gianfrancesco Guarnieri e direção de Paulo José — período em que, nos bastidores da ditadura militar, usou de sua coragem para ajudar na proteção e fuga de colegas perseguidos políticos.

SERVIÇO
As Marias de Belém do Pará – Somos Todos Marias
Local: Teatro Sesc Ginástico (Av. Graça Aranha, 187 – Centro – Rio de Janeiro)
Temporada: 14 de agosto a 13 de setembro
Dias e horários: Quintas e sextas, às 19h | Sábados e domingos, às 17h
Ingressos: Quintas e domingos: Inteira: R$ 50 | Meia: R$ 25 | Comerciários e conveniados Sesc: R$ 15 | Convênio empresário: R$ 16,50 | PCG: gratuito
Sextas e sábados: Inteira: R$ 60 | Meia: R$ 30 | Comerciários e conveniados Sesc: R$ 15 | Convênio empresário: R$ 16,50 | PCG: gratuito
Vendas: Online em Ingresso.com e presencial na bilheteria do teatro
Classificação Indicativa: 12 anos
Duração: 1h40


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