Ana Marcela Cunha encara travessia do Canal da Mancha

Atleta do Sesc RJ inicia preparação final na Inglaterra para realizar um sonho de infância e vencer um dos maiores desafios da natação mundial.

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A campeã olímpica Ana Marcela Cunha já está na Inglaterra para a reta final de preparação para um dos maiores desafios de sua carreira: a Travessia do Canal da Mancha. A atleta do Sesc RJ desembarcou em Folkestone, na Inglaterra, que será sua base até a largada, e iniciou imediatamente o processo de adaptação às condições que encontrará na ultramaratona aquática, considerada o “Everest da natação”.

A brasileira terá sua janela de tentativa entre os dias 20 e 29 de julho, mas só saberá a data exata da largada cerca de 24 horas antes, já que a definição depende das condições climáticas e marítimas. Ao seu lado está o treinador Kafu e o guia especialista no Canal da Mancha, Igor de Souza, tricampeão da Volta de Manhattan e um dos poucos brasileiros a completar a travessia do Canal da Mancha por três vezes.

“Assim que chegamos ela já caiu na água para ir se adaptando. Ela vai fazer treinos diários por aqui, sempre de manhã e à tarde. Pela manhã serão sessões mais longas, entre uma hora e meia e duas horas, e à tarde um treino de aproximadamente uma hora”, explica Igor.

Durante os últimos meses, Ana Marcela realizou uma preparação específica para enfrentar as dificuldades do Canal da Mancha. Entre os treinamentos, completou um simulado de 12 horas e 42 quilômetros de natação durante a noite, na Represa Billings, em São Paulo, além de intensificar a adaptação ao frio em uma piscina do Sesc Petrópolis, treinando em águas com temperatura próxima aos 17°C.

“Ela fez uma preparação de 12 horas nadando e sentiu bastante o frio. Pedi para ela treinar bastante em água gelada, com média de 17°C, e ela fez isso durante o último mês”, destaca Igor.

Separando Inglaterra e França, o Canal da Mancha possui cerca de 34 quilômetros de travessia, mas as fortes correntes fazem com que a distância percorrida pelos nadadores normalmente seja ainda maior. As águas variam entre 15°C e 17°C, e a prova pode durar de oito a doze horas, além da possibilidade de encontros com medusas durante o percurso. Para que a travessia seja homologada oficialmente, as regras são rígidas. Os atletas só podem utilizar maiô, touca e óculos, sem qualquer tipo de roupa térmica, neoprene, luvas, nadadeiras ou equipamentos que ofereçam vantagem.

“Esse é um sonho que me acompanha desde o início da minha carreira. Sempre imaginei que um dia chegaria esse momento e agora ele está muito perto. Sei exatamente dos desafios que vou enfrentar, mas também sei por que estou aqui”, afirma Ana Marcela.

A campeã olímpica reforça que a travessia representa muito mais do que uma busca por marcas ou recordes.

“Vou entrar naquela água apenas com a minha touca, o meu maiô e os meus óculos. É assim que a tradição da prova exige e é assim que quero viver esse desafio. Vou atrás de um sonho de criança, levando comigo toda a minha história dentro da natação.”

Embora exista a possibilidade de entrar para o Guinness World Records, caso estabeleça uma nova marca, Ana Marcela garante que o tempo não é sua principal motivação.

“O tempo, para mim, hoje não é o mais importante. Tenho me segurado muito nisso. Quero fazer uma travessia muito mais pelo coração, pela realização pessoal e profissional, do que buscar um recorde e me frustrar por causa disso.”

O sonho de cruzar o Canal da Mancha nasceu ainda na adolescência, quando Ana Marcela começou a conhecer mais profundamente a história das maratonas aquáticas.

“Eu lembro muito bem que, por volta de 2004, ainda em Salvador, perguntaram qual era o meu sonho. Na época eu falava sobre o Pan-Americano de 2007 e a Olimpíada de 2008. Depois, quando conheci melhor a história das maratonas aquáticas e entendi a importância do Canal da Mancha para o esporte, passei a dizer que queria viver essa experiência enquanto ainda estivesse em alto rendimento.”

Caso complete a travessia, Ana Marcela também poderá entrar para um seleto grupo de atletas que venceram um dos maiores desafios das águas abertas. A primeira mulher a completar o percurso foi a campeã olímpica Gertrude Ederle, em 1926. Durante toda a tentativa, a nadadora será acompanhada por uma embarcação oficial com seu técnico Kafu, o guia Igor de Souza, um barqueiro, um árbitro responsável pela homologação, um representante do Guinness World Records e um videomaker.

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