
Dia Nacional da Cultura 2021
Amálgama de manifestações, saberes, sabores, performances e rituais dos povos que coexistem historicamente de norte a sul do país, a cultura brasileira é, ao mesmo tempo, singular, plural e infindável.
Por Vicente Costa
Bibliotecário e curador literário
“Cultura como tudo aquilo que, no uso de qualquer coisa, se manifesta para além do mero valor de uso. Cultura como aquilo que, em cada objeto que produzimos, transcende o meramente técnico. Cultura como usina de símbolos de um povo. Cultura como conjunto de signos de cada comunidade e de toda a nação. Cultura como o sentido de nossos atos, a soma de nossos gestos, o senso de nossos jeitos.” Em 02 de janeiro de 2003, o então ministro Gilberto Gil, em seu discurso de posse, teceu palavras sobre o sentido da cultura. Ao longo de seu pronunciamento inaugural, o mestre da Tropicália versa sobre a multifacetada cultura brasileira e o reconhecimento das manifestações oriundas do povo.
A palavra cultura vem do latim colere e significa cultivar. Tem seu uso, desde o século 16, ligado ao cultivo do espírito através das artes, ciências, da literatura e das belas artes em geral. O Dia Nacional da Cultura, celebrado anualmente em 05 de novembro, foi instituído em 1970 em homenagem à data de nascimento do jurista, escritor e diplomata Rui Barbosa, um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras, e homenageado também através da notável Fundação Casa de Rui Barbosa.
Em uma país de dimensões continentais e população de milhões de pessoas de nichos, fluxos e trajetórias diferentes, uma visão única para a cultura brasileira não é mensurável, a despeito de movimentos que, em perspectiva histórica, buscaram a criação da identidade nacional, como no romantismo literário do século 19, através de uma idealização errônea de povos e tradições indígenas. Em contraponto, os manifestos modernistas, as telas das favelas pintadas por Heitor dos Prazeres, o teatro político de Arena Conta Zumbi, o Cinema Novo de Glauber Rocha, a Música Popular Brasileira ao longo século 20, entre outros, trazem a compreensão de que tal identidade nacional se descobre na diversidade.
“A multiplicidade cultural brasileira é um fato. Paradoxalmente, a nossa unidade de cultura unidade básica, abrangente e profunda também. Em verdade, podemos mesmo dizer que a diversidade interna é, hoje, um dos nossos traços identitários mais nítidos. É o que faz com que um habitante da favela carioca, vinculado ao samba e à macumba, e um caboclo amazônico, cultivando carimbós e encantados, sintam-se e, de fato, sejam igualmente brasileiros. Como bem disse Agostinho da Silva, o Brasil não é o país do isto ou aquilo, mas o país do isto e aquilo. Somos um povo mestiço que vem criando, ao longo dos séculos, uma cultura essencialmente sincrética. Uma cultura diversificada, plural, mas que é como um verbo conjugado por pessoas diversas, em tempos e modos distintos.” – Gilberto Gil.
A diversidade cultural é um bem indispensável e nos oportuniza o diálogo entre civilizações e culturas e sua mútua compreensão. E tal como o Direito à Cultura, deve ser inalienável ou seja, garantido para as pessoas de forma democrática e acessível.
O Sesc RJ, através de sua Política Cultural, reafirma a cultura como elemento identitário e a diversidade como característica essencial da humanidade, ressaltando que a valorização de variados modos de criação significa legitimar as diferenças, conferindo-às igual dignidade e o entendimento de que todo ser humano deve ter o direito de conceber suas próprias expressões culturais, conhecimento e simbolismo.
O Dia Nacional da Cultura nos oferece a possibilidade de reforçar nossa vocação à promoção da cultura, evidenciando a sua importância plural e múltipla. A diversidade cultural brasileira é uma amplificadora do desenvolvimento, não apenas relacionado ao fator econômico, mas também como agente de inclusão e de meios para o pleno estabelecimento de qualidade de vida intelectual, de saúde mental e emocional. Sobretudo na atual conjuntura, durante este tempo de limitação de nossas ações cotidianas, imposta pela pandemia.
A cultura é uma fonte de resiliência, bem-estar e conexão para e entre as pessoas. O Sesc RJ também.
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