Literatura Indígena - Dia do Índio
Crédito: Getty Images

Literatura Indígena: (Re)existência!

Produção literária de autoria indígena das últimas décadas é ferramenta potente para a difusão da cultura e resgate de representação histórica, tal como o protagonismo em suas próprias histórias.

Por Vicente Costa
Bibliotecário e Analista de Literatura

“O mês de abril traz muitas possibilidades de reflexão e é bom que assim seja. Talvez, a mais importante, seja rever o conceito do “índio” que está introjetado no coração do brasileiro”. Daniel Munduruku, escritor e pós-doutor em literatura, em artigo à revista Moitará, traz reflexões urgentes sobre os povos originários, reflexões às quais toda sociedade precisa se atentar. Segundo o autor é importante “se dar conta que esta palavra traz consigo um fardo muito grande e pesado, pois se trata de um apelido aplicado aos habitantes dessa terra. Pensar que a palavra é um engano tão grande quanto considerar que estes grupos humanos podem ser reduzidos a ela. Não podem.

O termo “índio” não é o adequado, tampouco é um sinônimo para a palavra indígena. Etimologicamente falando, a palavra era usada por europeus para se referir aos habitantes das regiões do Extremo Oriente e para as regiões que desconheciam. Desde a chegada dos portugueses, o termo foi utilizado de forma a generalizar e atribuir aos povos da terra características preconceituosas como selvagem, preguiçoso, canibal, primitivo, entre outras. Em contrapartida, Daniel destaca que o termo indígena significa aquele que pertence ao lugar, ou, original do lugar, e age como afirmativo tanto do pertencimento quanto das tradições de seu povo, e não tribo. O termo tribo também não é adequado, pois sugere que sejam pequenos grupos submissos a uma classe dominante. Atualmente existem mais de 300 povos indígenas no Brasil, e cerca de 180 línguas e dialetos falados.

O indígena na literatura 

A representação do indígena na literatura brasileira data do primeiro documento histórico concebido neste território, a Carta de Pero Vaz de Caminha. Contudo, é importante frisar a diferença entre a literatura de autoria indígena – concebida por escritoras e escritores dos povos originários – e uma literatura sobre o indígena – concebidas por pessoas não pertencentes a alguma nação indígena. 

Durante grande parte da história do Brasil, a produção literária que envolvia a figura indígena foi realizada pelo olhar do colonizador. Tanto na Carta de Caminha, que transmite a Portugal impressões sobre o achado da nova terra e impressões sobre os nativos, quanto nos Sermões dos padres que eram voltados para a catequização dos indígenas, é possível perceber a intenção da imposição da cultura, religião e ideologias europeias.

Ao longo dos anos do período colonial perpetuou-se na literatura a elaboração de textos que apresentavam visões estereotipadas e até desumanizantes sobre os indígenas. Obras como Uraguai, de Basílio da Gama, e Caramuru, de Santa Rita Durão são exemplos. Durante a fase da literatura brasileira conhecida como Romantismo (1836 a 1880), houve uma primeira geração de autores – não indígenas – que utilizou a figura do indígena para criar uma imagem de herói nacional e evocar um sentimento ufanista aos brasileiros. Essa geração literária do Romantismo é conhecida como geração Indianista e é formada por autores como José de Alencar que publicou obras como O Guarani e Iracema.  E também Gonçalves Dias com seus poemas Juca-Pirama e Canção do Exílio, entre muitas outras obras.

É possível perceber que durante bastante tempo a escrita em torno da representação indígena, suas tradições e costumes, eram registros ilegítimos fabricados por pessoas sem local de fala ou pertencimento para tais questões. Outro equívoco comumente feito, é o de achar que pelos povos originários não terem desenvolvido a escrita alfabética até determinado momento, presumir que não existia literatura de fato indígena, quando sempre houve através da oralidade, a transmissão e registros de sua histórias, mitos, lendas e encantados.

O panorama desta representação indígena segue ao longo dos anos sem avanços no sentido de desconstrução da imagem pejorativa. Em Macunaíma, Mário de Andrade apresenta um protagonista indígena como um herói sem caráter e preguiçoso. O personagem faz uma referência distorcida à divindade indígena Makunaimã, deus de povos como Macuxi, Taurepang e Wapichana, por exemplo.

Apenas a partir da Constituição Federal (1988) os horizontes para uma produção literária de autoria indígena e que desse conta das questões dos povos originários foi possível. Antes de 1988, a legislação indigenista classificava os sujeitos indígenas como categorias transitórias. O que isso significa? Significava que todo sujeito indígena que aprendesse a ler, escrever e publicasse um livro deixaria de ser reconhecido como sujeito indígena e apenas seria reconhecido como cidadão brasileiro. O reconhecimento adquirido através da Constituição deu garantias aos autores indígenas de terem salvaguardados suas organizações sociais e seus costumes, tendo a cidadania brasileira e a identidade indígena em paralelo. Desta forma foi possível ter o livro e sua produção como um multiplicador da palavra indígena em todo país.

Literatura de autoria indígena

Com a autonomia assegurada, houve avanços no panorama da representação indígena nos anos após a Constituição. Em 1989, a autora Eliane Potiguara lança A Terra é a Mãe do Índio,  uma obra que trata das questões sofridas pelas nações ao longo dos séculos, como por exemplo o processo de escravidão indígena. Eliane propôs trazer a sua história através de seu discurso. A escritora é também fundadora do GRUMIN (Grupo Mulher-Educação Indígena), primeira organização de mulheres indígenas do Brasil, que buscou a integração da mulher indígena na educação e no processo social, político e econômico no país, tendo contribuído na elaboração da Constituição Federal. 

Os anos 1990 traz a primeira incursão da literatura indígena na temática infanto-juvenil. Daniel Munduruku lança em 1996 o livro Histórias de Índio, no qual o autor traz contos, crônicas, informações gerais e depoimentos sobre os povos indígenas do Brasil. O papel de Daniel Munduruku na promoção, investimento e divulgação literária indígena foi fundamental para que na década de 2000 mais autores pudessem publicar seus trabalhos. 

As obras literárias lançadas na década também cumpriram aspecto reparador para com os mitos, lendas e seres encantados dos povos nativos, que ao longo dos anos tiveram sua imagem desconectada de suas origens indígenas. Neste contexto livros como As Pegadas do Kurupira (Mercuryo Jovem, 2009) e Kurumi Guaré no Coração da Amazônia (FTD, 2007), que traz histórias sobre o Boto, de Yagurê Yamã; Djatchy Djatere: o Saci Guarani (e-book independente, 2020), de Geni Núñes; A Encantada, que traz contos sobre a sereia Yara, de Jaider Esbell, apresentam um contraponto a produção folclórica mais difundida, mostrando outras versões dessas histórias. 

Desta forma, temos um despontar de autores da literatura indígena voltados à temática infanto-juvenil entre os anos de 2000 a 2020. Além dos já citados anteriormente, destacam-se autores como Graça Graúna (Potiguara); Lia Minapóty (Maraguá); Luciano Ariabo Kezo (Umutina); Edson Kayapó; Edson Krenak; Olívio Jakupé (Guarani); Kaká Werá (Guarani); Tiago Hakiy (Sateré-Mawé); Cristino Wapichana; Aline Pachamama (Puri), entre outros.

Entre as premiações temos Daniel Munduruku ganhando menção honrosa do prêmio Literatura para Crianças e Jovens na Questão da Tolerância da UNESCO em 2003, com o título Meu avô Apolinário: um mergulho no rio da (minha) memória (Studio Nobel, 2001). No ano seguinte, o autor recebeu menção honrosa do Prêmio Jabuti com o título Coisas de Índio: versão infantil (Callis Editora, 2003). O título Guaynê derrota a cobra grande: uma história indígena (Autêntica, 2016), de Tiago Hakiy foi vencedora do 9º Concurso Tamoios de Textos de Escritores Indígenas. Contos da Floresta (Peirópolis, 2012), de Yagurê Yamã, recebeu o Prêmio Altamente Recomendável, pela FNLIJ. O título A Boca da Noite (Zit, 2016), de Cristino Wapichana, foi vencedor do Prêmio FNLIJ e do Prêmio Jabuti em 2017. Em 2018, ganhou o Estrela de Prata no Peter Pan – IBBY Suécia.

Para além da literatura infantil, neste período outros autores também conceberam obras de destaque e repercussão no meio literário e na sociedade. Davi Kopenawa e Ailton Krenak. 

Davi Kopenawa é um xamã reconhecido mundialmente pela defesa dos direitos dos povos Yanomami, a maior nação indígena do Brasil, da qual é líder político. Publicou em 2015 o livro A Queda do Céu: palavras de um xamã Yanomami (Companhia das Letras), em co-autoria com o antropólogo francês Bruce Albert. Na obra, Davi elabora um manifesto xamânico e testemunho de suas vivências para denunciar destruições acerca de seu povo, narrando a crença de que o céu entraria em colapso se um dia a floresta desaparecer. Davi recebeu em 2019 o prêmio Right Livelihood Award, conhecido como Prêmio Nobel Alternativo, pelo seu trabalho de mais de 30 anos em defesa dos direitos do seu povo na Amazônia.

Ailton Krenak é um dos grandes pensadores brasileiros da atualidade. Além de escritor, é líder indígena, ambientalista e jornalista. Participou da Assembleia Constituinte em 1987, na qual durante um discurso na tribuna, pintou o rosto com jenipapo, seguindo o costume tradicional indígena, como forma de protesto contra o retrocesso na luta pelos direitos dos povos indígenas no Brasil. Recebeu em 2015 o prêmio de Ordem do Mérito Cultural, do então Ministério da Cultura. Nos últimos anos teve sua produção amplamente difundida, foi o autor mais vendido na FLIP 2019 com a obra Ideias para adiar o fim do mundo (Companhia das Letras). No último ano lançou outros dois ensaios derivados de entrevistas, os livros O amanhã não está à venda e A vida não é útil (ambos lançados pela Companhia das Letras).

Segundo o projeto Bibliografia das Publicações Indígenas do Brasil, coordenado pela bibliotecária e pesquisadora Aline França, o escritor Daniel Munduruku e o também bibliotecário e pesquisador Thulio Dias, foram encontrados registros de 58 autores indígenas e 197 obras literárias publicadas. A bibliografia está disponível na plataforma Wikilivros e apresenta a lista das obras organizadas com todas as informações pertinentes de cada publicação. A proposta é que o projeto seja colaborativo, para que o conteúdo possa agregar referências de produções literárias e autores indígenas de todo o território e mantenha-se atualizado.

 

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