II Seminário Internacional de Mediação Cultural Sesc RJ

Seminário Internacional de Mediação Cultural do Sesc RJ: Decolonialidade e iniciativas independentes de museologia dão o tom do 1º dia do evento

II Seminário Internacional de Mediação Cultural do Sesc RJ tem início com nomes de referência no Brasil e no mundo. 

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Decolonialidade foi a palavra-chave do primeiro dia do II Seminário Internacional de Mediação Cultural do Sesc RJ. O evento teve início na manhã desta terça (7), com a fala do presidente da Fecomércio RJ, Antonio Florêncio de Queiroz Júnior.

Queiroz abriu a cerimônia prestando homenagem a Danilo Santos de Miranda, sociólogo, filósofo e Diretor Regional do Sesc São Paulo desde 1984, que faleceu no dia 29 de outubro:

II Seminario Interncional Mediação Cultural 2023

 

“A história do Sesc e a do Danilo se confundem ao longo da vida. Danilo foi várias vezes convidado a ser Secretário, a ser Ministro da Cultura. Não aceitou: ele falava que poderia fazer muito mais estando no Sesc do que no Ministério. E assim fez: se hoje o Sesc é uma referência cultural, deva-se a Danilo Miranda”.

 

 

Na sequência, a Secretária de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, Danielle Barros, deu continuidade à cerimônia, destacando a relação de sinergia da pasta com o Sesc RJ:

“Compartilhamos dos mesmos ideais, temos uma relação sinérgica com tudo aquilo que o Sesc e a Fecomércio têm realizado no estado do Rio de Janeiro, e temos conseguido avançar juntos”, declarou. Barros agradeceu, ainda, pela promoção do evento como espaço de troca: “Obrigada, presidente, por construir esse espaço de diálogo. Obrigada pela oportunidade de nos permitir que estejamos juntos, nos encontrando com as pessoas que são de fato os embaixadores da cultura do estado do Rio de Janeiro”.

Às 11h, teve início a Conferência de Abertura do evento, com a presença de Chiara de Cesari (Itália), professora de Patrimônio, Memória e Estudos Culturais na Universidade de Amsterdã e catedrática de estudos culturais na mesma universidade; e Walter Mignolo (Argentina), professor ilustre da William H. Wannamaker e diretor do Centro de Estudos Globais e Humanidades da Duke University. A mediação ficou a cargo do professor do Departamento de Artes Visuais da Universidade de Brasília Cayo Honorato.

DECOLONIALIDADE: CONCEITOS E PROBLEMÁTICA
Em sua explanação, Mignolo identificou o período da modernidade, na Renascença, como o momento da História mundial que marcou a criação de uma retórica de “salvamento” por instituições políticas, econômicas e também educacionais, como Igreja, universidades, escolas e museus. Para o semiólogo, essa lógica estaria em crise: “Quinhentos anos depois, as instituições ‘salvadoras’ entram em questionamento”, analisou.

Para Mignolo, a decolonização é constituída pelos que não se encaixam nesse sistema de modernidade, como “a educação, os museus, a arte, a música, os jornalistas, e os ativistas que não são membros dessas instituições que governam o mundo”.

Em sua linha do tempo, o professor argumentou que a modernidade europeia colonial tornou a cosmologia binária, de “A contra B” e não “A mais B”, no sentido oposto à multiplicidade e a generosidade de crenças de povos originários colonizados.

Em seguida, Chiara de Cesari abordou outra forma de embate: a do campo da mediação cultural. Para a antropóloga, a ideia de que mediação tem uma aura de neutralidade é falsa: “Museus e instituições culturais não são neutros, claro. Museus são campos de batalha e estão debatendo temas importantes para a sociedade, como o racismo”, defendeu. “Precisamos questionar por que museus estão se interessando por questões sobre colonização e decolonialidade. Por que importa a eles serem vistos como brancos e antiquados?”. E se posicionou: “Não podemos usar instituições coloniais como os museus para entrar no campo de batalha da decolonialidade. Eles ainda estão engatinhando sobre isso”. E concluiu, mais adiante, citando Audre Lorde: “Não podemos fazer o desmonte da Casa Grande com as ferramentas dos senhores” (tradução livre de The master’s tools will never dismantle the master’s house).

A professora citou, ainda, exemplos de iniciativas culturais independentes e inclusivas na Palestina, na Indonésia e em Roma.

CONTRA O APAGAMENTO DE CULTURAS, MUSEUS INDEPENDENTES
À tarde, a mesa “Mediação cultural contra epistemicídios e apagamentos – Projetos e iniciativas para valorização da memória e do indivíduo no contexto de museus e centros culturais” reuniu representantes de três iniciativas de museus negros e indígena.

A carioca Ana Paula Ribeiro Alves, professora adjunta da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense e dos Programas de Pós-Graduação em História da Arte da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e de Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense, falou sobre a construção do Museu Afrodigital do Rio de Janeiro, programa de extensão da Uerj, que teve início em 2010.

Ribeiro Alves contou como o museu, 100% digital, tem especificidades por ser um acervo virtual: “O senso comum entende que o digital é mais acessível, mas há gastos com armazenamento de dados, compra de servidores etc. Além disso, museus com acessibilidade são três ou quatro vezes mais caros”, detalhou. Por outro lado, “é um projeto de ancoragem e generosidade digital: a gente não pretende ficar com o acervo das pessoas, mas repatriar, principalmente arquivos negros para pesquisas etc. E principalmente que não estejam na lógica da dor eterna”, acrescentou.

Indígena da etnia Kanindé, do município de Aratuba (CE), Antônia dos Santos Silva, museóloga pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e mestranda em Antropologia na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, apresentou uma retrospectiva crítica sobre a colonização dos povos indígenas e, em seguida, fez uma explanação sobre o Museu Kanindé, centro criado em 1996 por Cacique Sotero, e do qual ela integra a coordenação.

“Foi a primeira organização educacional e cultural do Povo Kanindé” – orgulhou-se. “A gente brinca que antes de ter escola tivemos museu”. Apresentando fotos da trajetória do museu, Antônia contou que apesar das mudanças, a expografia inicial criada pelo cacique foi mantida. E divertiu o público ao explicar que o acervo é interativo: “Se tiver uma festa na oca e faltar uma maraca, a gente vai lá, pega da parede e usa”. Para os Kanindé, argumentou, “é mais importante preservar o saber-fazer” do que o objeto em si.

Compôs a mesa, ainda, o alagoano Deri Andrade, formado em Comunicação pelo Centro Universitário Tiradentes, especialista em Cultura, Educação e Relações Etno-raciais pela USP e mestrando em Estética e História da Arte pela USP. Andrade, que também é curador assistente no Instituto Inhotim, relatou a experiência de criação do Projeto Afro, uma plataforma online afro-brasileira de mapeamento e difusão de artistas negros.

O curador fez um retrospecto sobre as iniciativas culturais negras desde o Teatro Experimental do Negro (TEN), criado por Abdias Nascimento, até a criação do Projeto Afro, em 2020, que descreveu: “É uma plataforma digital afro-brasileira de mapeamento e difusão de artistas negros, negras e negres criada de forma independente”. Atualmente, o projeto reúne 184 artistas. A mediação da mesa ficou a cargo de Ana Paula Rocha, museóloga e coordenadora técnica da unidade Engenho de Dentro do Sesc.

O II Seminário Internacional de Mediação Cultural acontece até esta sexta, dia 10.

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