
Seminário Internacional de Mediação Cultural do Sesc RJ: mesa sobre história da África, agência cultural indígena e mediação de museus encerram terceiro dia do evento
“Três mulheres feras, potentes e que dominam a área da cultura”, como resumiu ao microfone um espectador do público, aqueceram o debate sobre vivências racializadas/étnicas na mediação cultural na tarde desta quinta durante o II Seminário Internacional de Mediação Cultural, realizado pelo Sesc RJ. A veterana professora doutora e fundadora do Ipeafro Elisa Larkin Nascimento; a advogada, professora e arte educadora indígena Fernanda Kaigàng e a educadora, pesquisadora e museóloga Gleyce Kelly Heitor fizeram falas ricas, contundentes e emocionadas.
ÁFRICA MUITO ALÉM DA DIÁSPORA
Cofundadora, ao lado de Abdias Nascimento, do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IpeAfro), a doutora em psicologia pela USP e mestre em direito e em ciências sociais pela Universidade do Estado de Nova York, Elisa Larkin Nascimento abriu a tarde com uma vasta linha do tempo até 5 mil anos antes de Cristo na história africana.
Larkin exibiu evidências históricas do alto grau de conhecimento de civilizações africanas como a egípcia, muito antes da chegada de europeus ao continente africano. “Há registros, por exemplo, de cirurgias, e que os africanos tinham noções de assepsia, cauterização e muitos outros conhecimentos essenciais para a prática de cirurgias, por exemplo”, detalhou.
A professora abordou ainda conhecimentos astronômicos, matemáticos, filosóficos e de navegação do continente africano, mostrando que evidências indicam que os africanos teriam feito navegações para diversos continentes antes das navegações europeias – e de como a presença de descendentes africanos em lugares como Rússia, Ásia de forma geral, Europa e até na nobreza da Inglaterra foi historicamente apagada.
“É a nossa cultura, vamos fazer como acharmos melhor!”
Tomando a palavra, a advogada e professora Fernanda Kaigàng, do povo indígena homônimo originário do Rio Grande do Sul, fez uma fala enérgica e apaixonada sobre a cultura e a resistência indígenas.
Kaigàng é fundadora do Ponto de Cultura Kanhgág Jãre, em Ronda Alta (RS), primeiro Ponto de Cultura Indígena do Brasil, e do Instituto Kaingáng (Inka), e discorreu ao longo de uma hora sobre o histórico de dizimação das etnias no Brasil, a importância do resgate da cultura indígena entre os jovens, a produção de artefatos como fonte de renda indígena, o etnocídio configurado pela morte das línguas indígenas ao longo dos 523 anos de convivência com os brancos e todos os preconceitos e barreiras burocráticas e de poder que a educação formal e a atividade cultural indígenas encontram no dia a dia.
“Ouvindo a Elisa e a Gleyce eu fiquei pensando aqui… não sou museóloga, não sou antropóloga, mas a gente criou um centro cultural porque a gente queria criar! A gente precisava. A ideia do ponto de cultura é um museu de memória viva. E ele tem o que a gente achou importante ter. Não foi o que as pessoas acharam que tinha que ser. Muitas pessoas criticaram, disseram ‘ah, mas isso…’ – isso é a nossa cultura, nós vamos fazer como acharmos melhor! Chama-se protagonismo” – resumiu.
Encerrando a mesa, a educadora, pesquisadora e museóloga Gleyce Kelly, atual diretora de Educação do Instituto Inhotim, fez uma fala bastante crítica sobre a normatividade dos museus. “Não tem nada mais normativo do que o museu: existe uma forma de estar no museu, ‘não pode falar no museu’, não é espontâneo” – analisou.
Kelly levantou valores com que pensa a mediação cultural hoje: “Educação como espaço para produção de conhecimentos; Público como praticantes da cultura; Instituição como lugar de redistribuição e Arte como criação do presente”.
A pesquisadora contou sobre seu trabalho com a obra do artista Francisco Brennand, no Recife, em que lançou luz sobre a participação e até a cocriação dos assistentes oleiros do escultor. Em seguida, a museóloga esquadrinhou sua atuação como curadora do Paço do Frevo, museu do Recife, que foi criado em 2013 “com a curadoria de uma carioca”. Sob sua atuação, os recifenses foram ouvidos sobre o museu que queriam, e nomes locais da história do frevo, e não somente o frevo como patrimônio cultural, passaram a fazer parte do acervo do museu.
O penúltimo dia foi encerrado com a performance artística “Audiência com a Rainha da Cocada Preta”, em que a artista visual, pesquisadora, educadora, escritora e performer Renata Felinto, vestida como uma rainha toda de negro lia nomes de grandes mulheres negras da história do Brasil, citando palavras fortes de denúncia e empoderamento, enquanto dois atores negros serviam cocadas ao público.
O II Seminário Internacional de Mediação Cultural do Sesc RJ vai até as 21h desta sexta-feira (10), na unidade Flamengo do Sesc.
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