Dia Nacional da Consciência Negra

Dia da Consciência Negra: nossos passos vêm de longe

Celebrações sobre o dia 20 de novembro evidenciam cultura, luta, trajetória e a importância de movimentos sociais e artistas negros ao longo de 50 anos de resistência.

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Por Raquel Mascarenhas, Suelen Maciel e Vicente Costa
Bibliotecárixs e curadores literários

 

Tu que habitas na porteira de minha vida,
seja por mim!
seja pelos meus irmãos negros
filhos de tua pele ébano!
(Trecho do “poema-ebó, de Lívia Natália)

 

Passados 50 anos do primeiro ato evocativo à conscientização política, social e cultural da população negra e a presentificação de Zumbi – líder do estado negro Quilombo dos Palmares. O ato foi realizado em Porto Alegre, no dia 20 de novembro de 1971, pelo Grupo Palmares no Clube Social Negro.  

Impulsionada pelo Grupo Palmares, nas décadas de 1970 e 1980, a proposta de conscientização de uma nação negra foi aderida por outras instituições como Movimento Negro Unificado (MNU), militâncias negras e outros. A partir de então, as ações e estratégias políticas de reparação, preservação das memórias e africanidades, e reconstrução da história da população negra ganharam novos  das As memórias reivindicadas ou preservadas ao longo de gerações tecem novos contornos alinhados às agendas de debates pelos direitos da população negra na diáspora brasileira.

20 de novembro de 1695, data em que Zumbi dos Palmares, importante líder do Quilombo dos Palmares, morreu na Serra da Barriga, região que hoje pertence ao Estado de Alagoas. A data foi escolhida em função da representatividade que o líder quilombola teve através de uma história de luta e resistência pela liberdade do povo preto. 

No ano de 2003 foi fundamental para o reconhecimento da data, pois entrou no calendário escolar nacional como data comemorativa, também entrou no currículo de ensino das escolas, através da Lei Federal do Brasil 10639, a obrigatoriedade do ensino de “história e cultura afro-brasileira”. 

Conheça a origem do Dia da Consciência Negra – Museu Regional de São João Del Rei

A data foi instituída em 10 de novembro de 2011, como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, comemorado, anualmente, no dia 20 de novembro através da lei  L12519. No entanto, a data não é um feriado nacional, apenas em locais com leis municipais ou estaduais específicas. Dia da Consciência Negra é celebrado em 1.045 cidades; saiba onde é feriado – 20/11/2017 – Cotidiano – Folha de S.Paulo

O movimento negro teve papel fundamental no processo de nacionalização do Dia da Consciência Negra, especialmente no final do séc XIX. “A atuação do movimento negro no interior da Constituinte de 1987 abriu espaço para a inclusão de medidas que promoviam, em partes, uma reparação histórica contra a desigualdade, o racismo e o apagamento dos negros no Brasil”. 20 DE NOVEMBRO – DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA – Sinplalto

Avante, seguimos para o dia 20 de novembro de 2021 –   Dia da Consciência Negra, uma data que representa a luta da comunidade negra para afirmação da identidade e memórias da população e garantia dos direitos.  

“Nós, que carregamos no corpo escuro
os mistérios de nossas divindades,
te vemos espelhado nos nossos cabelos de carapinha,
nos traços fortes de nossas faces,
na nossa alma azeviche!”
(Trecho do “poema-ebó, de Lívia Natália)

 

“Nossos passos vêm de longe” como dizia Lélia Gonzales, intelectual, autora, política, professora, filósofa e antropóloga brasileira. Foi pioneira nos estudos sobre Cultura Negra no Brasil e co-fundadora do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras do Rio de Janeiro, do Movimento Negro Unificado (MNU) e do Olodum. Sua caminhança progressista que considera todos, por que eu sou porque nós somos tal qual Mercedes Baptista, a primeira bailarina negra a integrar o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, responsável pela criação do balé afro-brasileiro inspirado em terreiros de candomblé. Mercedes também revolucionou o carnaval carioca ao incorporar elementos coreográficos aos desfiles, como por exemplo o movimento das alas das baianas, que desde a década de 1960 perdura até hoje

Nossos passos no teatro têm o Teatro Experimental do Negro (TEN), idealizado pelo grande Abdias do Nascimento em 1944, com a proposta de reabilitar e valorizar socialmente a herança cultural, a identidade e a dignidade do afro-brasileiro por meio da educação, da cultura e da arte. O TEN contribui para a formação de uma importante geração de atores negros para teatro, cinema e televisão, da qual sua história fazem parte como os saudosos Ruth de Souza e Haroldo Costa, além de Léa Garcia, entre outros.

No audiovisual seguimos a caminhada do saudoso Zózimo Bulbul, um dos grandes expoentes da cinematografia brasileira. Foi o primeiro protagonista negro de uma novela brasileira “Vidas em Conflito”. Zózimo trabalhou como ator em cerca de 30 filmes e também foi diretor. Em 2007 fundou o Centro Afro Carioca de Cinema, espaço de referência para produções cinematográficas negras, e desenvolve anualmente há 14 anos o Encontro de Cinema Negro: Brasil, Africa, Caribe e outras diasporas.

Nossos passos vieram de longe, e não é de hoje que temos o Quilombhoje. Coletivo Cultural Negro iniciado a partir de desdobramentos culturais do MNU, que publicam desde 1978 a série de antologias literárias, Cadernos Negros. Nomes icônicos da literatura negro brasileira já tiveram textos publicados ao longo de mais de 40 anos de (re)existência do projeto recorrentemente lançado ao dia 20 de novembro de cada ano. Escritores e escritoras como Cuti, Miriam Alves, Esmeralda Ribeiro, Cristiane Sobral, Conceição Evaristo, Éle Semog, Carlos Assumpção, Oliveira Silveira, são parte deste panteão fundamental para a história da literatura produzida por pessoas negras no Brasil.

A propósito, leia autoras negras: Maria Firmina dos Reis e Carolina Maria de Jesus!

https://youtube.com/watch?v=JLb9Itnbw_I

 

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