O Cinema de Amácio Mazzaropi

Conheça a obra do eterno Jeca do cinema brasileiro, Amácio Mazzaropi, o sertanejo matuto que afaga o nossos corações

Por Wellington Viana Barbosa

Estamos em julho, começo do inverno, e todo ano, nesta época, aguardamos ansiosos a festa junina mais próxima para aproveitar um pouco dessa que, sem dúvidas, é a mais nacional de todas as celebrações do país! Sim, esse ano vai ser bem diferente, mas no que depender de nós, o clima junino não vai faltar.

O cinema sertanejo

Tradição sertaneja para agradecer pela fartura no campo com uma forte presença da religiosidade católico-cristã-afro-brasileira, repleta de simbologias que apresenta um Brasil hospitaleiro, querido e reverenciado por sua alegria e fartura. O Brasil “brejeiro” ou “caipira”. E o “caipira” nós conhecemos bem: aquela pessoa matuta, um pouco desengonçada, com seu jeito “simples e natural”. Quem nunca remendou pedaços de tecido nas roupas, colocou um chapéu de palha ou fez maria-chiquinha nos cabelos? Mesmo aqueles que fogem das caracterizações já deve ter usado pelo menos uma camisa xadrez para ir a uma festa.

Assim como o cinema estadunidense perpetuou o arquétipo dos detetives e investigadores, ou seja, personagens de personalidade fria, observadora e sagaz através dos filmes policiais do cinema noir, aqueles em preto e branco tão presentes nos anos 1940 e 1950, mais ou menos na mesma época, no Brasil, nascia um cinema malemolente e despretensioso tendo como protagonista um perfil do nosso povo até então pouco explorado em nossa arte: esse “caipira” sertanejo, que atua no seu tempo, que é alheio à rotina e à burocracia das grandes cidades; um anti-herói que nos muniu de trejeitos e símbolos para caracterizar um pouco mais essa face brasileira.

Amácio Mazzaropi marcou seu nome no cinema e no imaginário popular brasileiro através do personagem ‘Jeca’, que traz a simplicidade e a ingenuidade do sertanejo e a sua teimosia em sobreviver num país que fecha os olhos para o povo mais sofrido. Ao longo de uma vasta carreira no circo, teatro, TV e cinema que durou mais de 50 anos, o artista protagonizou mais de trinta filmes e em muitos deles assinou o roteiro, a direção, a produção e ainda se encarregou da distribuição para o circuito comercial.

Uma carreira de sucesso

Seus filmes fizeram sucesso extraordinário, levando mais de 160 milhões de espectadores aos cinemas em todo o país. Nos últimos anos, as duas produções nacionais com maior público no país foram Minha vida em Marte (2018) e Minha mãe é uma peça 3, que alcançaram juntas quase 7 milhões de espectadores. Só para entendermos a importância e a dimensão da “franquia Mazzaropi”, os filmes de maior sucesso do cineasta, “Jeca Tatu” e “Casinha pequenina”, figuram na lista dos 50 filmes de maior bilheteria feitos no Brasil, com cerca de 8 milhões de espectadores cada.

Apesar do estrondoso sucesso de público, a desaprovação da crítica especializada da época era contundente. Mazzaropi foi alvo de duras críticas pela repetição no discurso e era criticado por seus pares cineastas por não dialogar sobre os temas urgentes da sociedade. Mas um trecho da crítica de José Carlos Avellar, publicada em 1976 no Jornal do Brasil, chama a atenção: “Ele é sempre amado pelas crianças e pelos puros de coração. E na vitória de seu personagem desajeitado e sentimental, corintiano, devoto de São Jorge, amigo dos animais, há uma indireta promessa de um paraíso, uma promessa de que esta terra ainda vai tornar-se um imenso roseiral”.

Jeca: o matuto brasileiro

O ‘Jeca’ de Mazzaropi fez tanto sucesso e se mantém na memória afetiva de todo brasileiro por ser uma representação honesta desse povo. Com a sensibilidade herdada do circo, ele conseguiu convergir em sua arte o Brasil acanhado e subjugado, que é explorado e colocado à margem do desenvolvimento. Em suas obras, o diretor não exibe grandes estrelas ou histórias emocionantes de amor, mas foca na sina desse povo que tem que se reinventar a cada dia para rasgar o dia seguinte, e o faz tão genialmente com a soberania de um palhaço que, mesmo com tantas agruras, a história que poderia ser um drama sem fim se torna a desventura cômica de um bufão que cria peripécias para se desgarrar dos tropeços do caminho. E esse caminho é bem conhecido por seus espectadores.

O cinema de Mazzaropi é a representação objetiva da luta de classes no Brasil e o faz da óptica do flagelado, aquele que não se acanha e, assim, se torna a expressão angelical desse sertanejo matuto que afaga o nosso coração e nos dá essa sensação de nos encontrarmos a cada filme num rancho no final de tarde com café quente e bolo.

No canal do Museu do Mazzaropi, no YouTube, estão disponíveis gratuitamente vários filmes completos, além de entrevistas e trechos das obras do cineasta. Vale a pena conferir. O canal aberto da TV Brasil também costuma exibir sessões especiais com os filmes deste que é o mais democrático de todos os diretores e diretoras de cinema deste “Brasilzão” de meu Deus.

Referências:

Museu Mazzaropi
Almanaque Folha
Terra
Estadão
Ancine
Funarte

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