Violência Infantil Abuso e a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes
Crédito: Getty Images

Literatura contra a Violência Infantil

Na luta conta a Violência Infantil, como os livros ajudam crianças e adolescentes a estar mais preparados para identificar e prevenir abusos sexuais.

Por Angelica Eichner
Bibliotecária e Analista de Literatura

A mãe diz para Chapeuzinho Vermelho levar pães e doces para a casa de sua avó, pois ela está doente e espera que sinta-se melhor com o agrado. A mãe avisa que pegue o caminho mais claro e longo e que não pare para com estranhos. Mas cansada de tanto caminhar, Chapeuzinho pega um atalho por dentro da floresta escura e encontro com um lobo. Sem saber que lobos são perigosos, Chapeuzinho conversa com ele e diz para onde está indo.

Já conhecemos como esta história termina. Chapeuzinho Vermelho é contada há séculos através da tradição oral, não sabe-se sua origem de fato, se na Europa da Idade Média ou do Oriente Médio, mas esta história ficou mundialmente conhecida depois da adaptação dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm entre 1812 e 1814. Recontada pelos irmãos, Chapeuzinho Vermelho aborda a aventura despretensiosa de uma menina que vai ao encontro de sua avó doente e ambas são devoradas por um lobo. Na adaptação dos irmãos Grimm temos ainda a figura do caçador, o salvador de Chapeuzinho e sua avó, com fins de dar aos leitores a esperança de um final feliz, uma vez que a história original é muito mais brutal.

A narrativa lúdica é comumente utilizada para o público infantil uma vez que consegue alcançar o mundo da criança fazendo-a ter a compreensão da realidade das relações humanas. A ludicidade de Chapeuzinho Vermelho é conhecida ao redor do mundo, podendo ter personagens diferentes, todas seguem a mesma lógica, alertar sobre crianças que andam sozinhas e que podem ser atraídas por estranhos com más intenções. É isto que diz Bruno Bettelheim (1903-1990), psicanalista austro-americano, de família judia da alta burguesia, e que durante a 2ª Guerra Mundial foi deportado com outros judeus austríacos para campos de concentração. Lá passou por condições extremas de desumanização, sofrendo abuso físicos e sexuais. Antes de sua deportação já era psicanalista e atuava em especial com crianças autistas. Após a anistia em 1939, Bettelheim conseguiu ser liberto e mudou-se para os Estados Unidos, onde desenvolveu seus trabalhos de psicanálise com crianças, em especial crianças traumatizadas. Atribui aos contos de fadas como a literatura em que a criança consegue encontrar significado, por suas percepções psicológicas que recebem as mensagens no consciente e até inconsciente.

Entre as páginas 3 e 4 do livro A psicanálise dos contos de fadas, Bruno Bettelheim (1976) diz:

A cada idade buscamos e devemos ser capazes de achar alguma quantidade módica de significado congruente com o “quanto” nossa mente e compreensão já se desenvolveram. […] Hoje, como no passado, a tarefa mais importante e também mais difícil na criação de uma criança é ajudá-la a encontrar significado na vida. Muitas experiências são necessárias para se chegar a isso. A criança, à medida que se desenvolve, deve aprender passo a passo a se entender melhor; com isto, torna-se mais capaz de entender os outros, e eventualmente pode-se relacionar com eles de forma mutuamente satisfatória e significativa.”

A literatura desde muito tempo tem diferentes papéis, seja para contar a vida de alguém, para registrar momentos históricos ou para divertir e advertir.

Assim como as readaptações dos contos de fadas, anualmente são publicados centenas de livros para o público infantil, pois entendeu-se que é vantajoso para o nicho no mercado editorial. Histórias para divertir e que ensinem boas maneiras existem aos montes, mas observando os últimos anos, percebe-se um crescente nos livros com temas mais delicados, como a morte e abusos.

No dia 18 de maio é celebrado o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Criado pela Lei 9.970/2000, também conhecida como Lei Araceli Crespo, em homenagem à menina de 8 anos sequestrada, violentada e assassinada em 18 de maio de 1973, cujos suspeitos foram absolvidos.

Começar a discussão sobre violência ainda na infância parece assustador para muitos adultos, porém é necessário, tendo em vista que os últimos dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH), em 2019 foram 86,8 mil denúncias de violações de direitos de crianças ou adolescentes no Brasil, sendo 11% somente de crimes sexuais. Destes, cerca de 73% ocorrem dentro da casa da vítima ou do suspeito, e geralmente o agressor é conhecido da vítima ou da família.

Crescer com consciência de seus corpos, de seus limites, é crucial. A literatura enquanto fonte de aprendizado pode e deve ser um instrumento para crianças e adolescentes. Os lobos maus estão à solta, mas nossas crianças podem estar preparadas.

Confira abaixo algumas indicações de livros e serviços que tratam do tema de abuso sexual na infância e adolescência:

  • Pipo e Fifi – ensinando proteção contra a violência sexual, de Caroline Arcari e Isabela Santos. Dois irmãos que aprendem um com o outro quais os limites de seus corpos, quais são as partes em que não se deve aceitar toques, e formas positivas de afeto.
  • Leila, de Tino Freitas e Thais Beltrame : Leila é um filhote de baleia que vive sendo assediado por seu vizinho, o Barão. Leila passa por constrangimentos e medo, se vê privada de ser ela e nadar como tanto amava, mas encontra afeto entre seus amigos e família para conseguir enfrentar tudo.
  • A mão boa e a mão boba, de Renata Emrich e Erica Ianni: a diferente de um toque pode ser muito sutil, e como explicar isso para as crianças? A mão boa e a mão boba, traz linguagem simples e auxilia responsáveis e crianças a perceber as intenções através do toque.
  •  Não me toca seu boboca!, de Andrea Viviana Taubman e Thaís Linhares: Ritoca e seus amigos tentam escapar de um tio gentil e sorridente, que com diversas investidas tornam a vidas das crianças em pesadelo. De forma lúdica o livro mostra às crianças o que é violência sexual e como evitá-la.
  • Projeto Tartanina: Projeto voltado para a capacitação de pais e profissionais de diversas áreas para a prevenção e combate à violência infantil. Tem livros publicados sobre bulliyng e violência sexual infantil.
  • O Disque 100 é o canal para denúncias dos Direitos Humanos. Ele funciona 24 horas, 7 dias por semana, recebe, analisa e encaminha denúncias de violação dos direitos humanos para os órgãos responsáveis. Em caso de suspeitas de abusos contra crianças e adolescentes, Disque 100 e vá ao Conselho Tutelar mais próximo.

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