Dia Mundial do Livro - Literatura - dicas literárias durante a quarentena

O que é Dia das Mães para você? 

Por Rede de Bibliotecas Sesc RJ

O Dia das Mães foi oficializado no Brasil em 1932, quando o presidente Getúlio Vargas emitiu o Decreto nº 21.366. Por meio desse documento, determinou-se o segundo domingo de maio como data comemorativa do Dia das Mães. De acordo com o decreto, são vários os motivos para que esse dia seja celebrado, dentre eles, os “sentimentos e virtudes que o amor materno concorre para despertar e desenvolver no coração humano, contribuindo para seu aperfeiçoamento no sentido da bondade e da solidariedade humana”.

No entanto, a consolidação desta data veio mesmo na época do regime militar de 1964 a 1985. De acordo com a historiadora Mary Del Priore, autora dos livros História das Mulheres no Brasil (Contexto, 2004) e Ao sul do corpo: Condição feminina, maternidades e mentalidades (Unesp, 2010), “copiava-se tudo dos Estados Unidos e houve, durante a ditadura, uma valorização enorme da família e das mães, em particular, a mulher dedicada aos filhos era um perfil exaltado em concurso, valorizado e que ganhava capas de revista”.

Mas é preciso questionar o verdadeiro sentido desta data.

Para refletir sobre as maternidades no contexto atual, a escritora Lian Tai* compartilhou conosco o seu relato: 

“Há pouco mais de três anos vi surgirem os dois risquinhos mais apavorantes da minha existência. Gerar uma vida foi, nos primeiros três meses, parecido com morrer. Além do cansaço físico e dos enjoos, eu entrava em um túnel escuro de desespero e de dor, que só muito mais tarde eu saberia nomear como depressão e pânico, ocasionados pelas variações hormonais da gravidez. Além de tudo, eu me sentia terrivelmente solitária, pois não encontrava narrativas parecidas com o que eu vivenciava. Era como se minhas emoções fossem erradas, como se eu não tivesse o direito de senti-las. Quando comecei a falar – ou melhor, escrever – publicamente sobre o que eu vivia, enxurradas de mães vieram à minha procura, para agradecer e dizer que atravessaram túneis semelhantes.

Então por que eu não as encontrará? Onde estariam suas narrativas? Foi quando compreendi o silenciamento a que nós, mães, somos submetidas. Compreendi que a romantização da maternidade nos esmaga, enquanto deslegitima nossas vivências, apagando tudo que foge ao único discurso aceitável: o mito da Virgem Maria. Pois, se uma verdadeira mãe deve viver em grato sacrifício, todo nosso cansaço e toda nossa dor não encontram lugar para existir. A quem essa ideia serve? – é a pergunta que devemos sempre fazer, em qualquer circunstância. Foi no período mais doloroso da minha vida – esse início do gestar – que descobri que uma palavra lançada abre portas aos chutes. Que, quando falo sobre mim, abro caminhos para que outras mulheres falem sobre si. E que a pluralidade de narrativas nos liberta. 

Quando minha filha nasceu, em 2018, descobri mais: que eu pensara conhecer o suficiente o Patriarcado, mas que agora ele se aprofundava e tornava-se mais espesso. Eu nunca havia sentido na pele a exclusão de mulheres do mercado de trabalho, mas depois que me tornei mãe ficou claro: como podemos cuidar de um ser que exige atenção integral e, ao mesmo tempo, atender a demandas de tempo e produtividade exploradoras? Por que o trabalho de cuidar não é igualmente dividido entre pai e mãe (quando há pai, o que já não é a realidade de muitas famílias)? Por que crianças não são responsabilidade de toda a sociedade, já que elas dizem respeito ao mundo que co-criamos? Descobri que nós, mães, não somos excluídas apenas do mercado de trabalho, mas também dos espaços de estudos e de lazer. É uma exclusão disseminada entre todos os grupos sociais e disfarçada de incômodo com a infância. É aceitável que se diga, por exemplo, que se odeia crianças, como se não fosse esse um discurso de ódio.

Porém, mesmo que ele não seja declarado, odeia-se que crianças sejam crianças. Ou seja, tratam-nas como seres incômodos, inconvenientes, por chorarem, gritarem ou brincarem, tudo que caracteriza a infância. Olha-se feio para as mães e pergunta-se: “Essa criança não tem mãe não?” ou “Onde está a mãe dessa criança?”. E, ao discriminar crianças, o resultado prático é que se perpetua a exclusão de mulheres dos espaços. De mulheres, repito. Jamais dos homens. 

Pra completar, somos constantemente medidas, comparadas e cobradas para termos corpos eternamente magros, rígidos e jovens, como se a maternidade não nos transformasse por inteiras. Somos chamadas de chatas e de loucas porque a sobrecarga física e mental nos consome. Somos ameaçadas por não conseguirmos cuidar dos pais dos nossos filhos como se fossem eles os filhos. Somos ameaçadas por não sermos atraentes ou bem cuidadas. E temos que agradecer e sorrir, enquanto nos sacrificamos qual Virgem Maria no pedestal, caso contrário atestamos que não amamos nossos filhos o suficiente. 

Essa retórica que, ao mesmo tempo em que nos santifica, nos coloca o tempo inteiro sob suspeição e culpa, não existe por acaso. Fazem-nos engolir o discurso de que para amarmos nossas crias devemos amar todas as condições da maternidade, como se elas fossem naturais e não construídas socialmente, passíveis de mudança e profundamente desequilibradas. Porque a sujeição das mulheres para criar mão-de-obra para o capitalismo é essencial para o mesmo, mas seu trabalho não é reconhecido como tal. Não é uma falha do sistema. É o próprio sistema. Por isso é urgente que nós, mães, rejeitemos a imposição do discurso romântico sobre nossas narrativas e que falemos a partir de nós. É urgente que se humanize as mães. E que a partir de nossa humanidade a gente encontre, como sociedade, um modelo mais acolhedor para os seres que chegam e para os que os trazem. Para isso, usemos a palavra e seu incrível poder transgressor. É isso que vos peço de presente, nesse maio. E é também o que ofereço: a minha palavra.”   Lian Tai

Este relato soma-se às reflexões e indicações apresentadas, como o objetivo de provocar a compreensão sensível e atenta sobre as maternidades e suas narrativas.

Como alguém se torna mãe? Será que gerar e dar à luz a uma criança é o suficiente para construir o sentido de “ser mãe”?

Alguns especialistas, como a pediatra Thelma de Oliveira (Dra. Relva), autora das obras O livro da maternagem (Schoba, 2013) e Pediatria radical (Senac, DF, 2010), diferenciam a maternidade da maternagem. A Dra. Thelma relaciona a maternidade ao processo biológico e a maternagem ao afeto e ao cuidado, nesse sentido, são incluídas a compreensão do ato de maternar as pessoas com vínculos afetivos e relações parentais. 

Observamos que ser mãe e viver o estereótipo da maternidade impecável é constantemente romantizado e idealizado, inclusive na literatura. As mães são representadas por mulheres fortes, corajosas e destemidas, verdadeiras heroínas que suportam todas as dores e dissabores do “padecer no paraíso”. Ela ainda precisa possuir todas essas qualidades, sem perder a delicadeza feminina que acolhe e protege seus filhos. Essa busca pela perfeição sobrecarrega a mulher-mãe.

Constantemente ouvimos relatos de mães que sentem a pressão da responsabilidade de corresponder às expectativas sociais e se culpam por isso. Neste sentido, a psicóloga Lívia Souza**, pontua:

“Os conflitos gerados pela idealização da maternidade, considerando o desequilíbrio e sobrecarga entre a divisão das demandas com a educação, cuidado e afeto e, seus interesses pessoais e profissionais. Sabe-se que historicamente a mulher-mãe assume um protagonismo nas relações familiares, sobretudo na vida de crianças, jovens e adolescentes. Logo, é atribuída a ela a responsabilidade e proporcional “sacrifício” pelo sucesso, fracasso e desenvolvimento de seu(s) filho(s) e /ou núcleo familiar. A pressão social e psicológica em busca do ideal materno, associada a sobrecarga profissional e doméstica. A dura realidade que se impõem, por demandas/funções associadas ao gênero, tem gerado, sobretudo nas mães, crises de estresse, ansiedade, depressão e outros distúrbios. A maternidade não faz da mulher uma super-heroína, elas são seres humanos em constante crescimento, que precisam de estabelecer redes  de apoio e afeto para criação de seus filhos.”

Tecnologia que aproxima

As inovações tecnológicas e o amplo acesso à informação, impulsionaram mulheres-mães a se organizarem de forma coletiva pela garantia de direitos e ações de interesse comum. Estes espaços formam uma rede de apoio, diálogo e acolhimento, a fim de trocar experiências através da literatura, de fóruns, ONGs e grupos. Podemos citar alguns exemplos: 

  • ONG Mães pela Diversidade, ajuda e acolhe famílias de pessoas LGBTQIA+;
  • A organização Mães que escrevem é uma grande rede formada por mulheres/mães que se organizam no intuito de oferecer suporte a outras mães. O grupo oferece apoio jurídico, consultoria financeira, acompanhamento com nutrólogas, pedagogas e psicólogas. Além de disponibilizar virtualmente textos com conteúdo direcionados para: maternidade atípica, maternidade negra, autocuidado em maternidade e body positive, mães de primeira viagem e textos que incentivam a escrita, para que mais mulheres consigam compartilhar seus conhecimentos e experiências. Além de dar apoio às mães que estudam com a coluna “Entre fraldas e livros”;
  •  APAE – A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais surgiu em 1954, no Rio de Janeiro. É uma organização social, que tem como objetivo promover a atenção integral à pessoa com deficiência intelectual e múltipla;
  • O Instituto de Apoio à Mães de Especiais – IAME oferece acompanhamento psicológico e apoio emocional para mães de portadores de necessidades especiais. Realiza diversas atividades e projetos com foco na inclusão de crianças deficientes em todos os diagnósticos e promove eventos inclusivos, para as crianças e seus familiares próximos. 

>> Confira as dicas literárias que nossa equipe preparou!

 

Notas

*Lian Tai é escritora, atriz e doutora em Comunicação Social. Mãe da Paz, é criadora do podcast Maternidade de Guerrilha, autora do livro Crônicas de Varanasi e uma das fundadoras e componentes do coletivo Slam das Minas RJ

**Lívia Souza é Psicóloga Clínica, professora de Psicologia na FAETEC – Três Rios. Pós-graduada em psicopedagogia clínica e Institucional, Pós-graduada em Educação, Sexualidade e Gênero. Pós-graduanda em Violência Doméstica.

 

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