Sesc RJ Pulsar: Exposição – Geometrias Sensíveis

Desde os seus primeiros gestos como artista, Mariana Guimarães tem o fio, o bordar e o tecer como elementos centrais de sua poética. O fio, em suas diversas dimensões — plástica, cultural, biológica, social —, é seu principal material construtivo e também a questão conceitual disparadora de seu trabalho há mais de uma década. Fruto de investigação consistente, desenvolvida em diversas plataformas e linguagens, o trabalho da artista com o fio desarticula, de forma muito particular, os estereótipos ligados ao trabalho feminino, associado ao ambiente doméstico, e problematiza a subjugação das mulheres ao tempo-espaço privado e sua exclusão da vida social e política.

Ao mesmo tempo, o trabalho de Mariana nos fala também da complexidade da casa enquanto espaço poético e político, com um fazer poético que borra os limites entre a arte — compreendida como trabalho raro e especial — e a cultura, que subentende os fazeres cotidianos e ordinários, a lida com o alimento e as plantas, o cuidado necessário à manutenção da vida, o maternar — compreendidos enquanto fazeres menores e desvalorizados.

Ao mobilizar tais questões em seu trabalho, a artista propõe o destecer e o desbordar como método crítico-poético. Nesse sentido, seu bordar não toma como método as rígidas cartilhas que ensinaram por tanto tempo como bordar certo, que introduziram violentamente entre nós a cultura colonial para a prática — bordado inglês, renda renascença etc. — e impuseram também às mulheres uma conduta moral e social reprimida, passada de geração em geração pelas mães.

Mariana busca justamente destecer esses protocolos tradicionais ligados ao bordado e à costura quando borda livremente ou encomenda o bordado à máquina; quando nos mostra os avessos do bordado, nem sempre perfeito e organizado; quando toma como “modelo” centenas de caquinhos de azulejaria, encontrados ao acaso, fragmentos de arquitetura que indicam também o modo construtivo dos trabalhos integrados nesta exposição, que tem como princípio a montagem e a fragmentação.

De seu desbordar restam fios soltos, pontas sem arremate que dão notícias do cansaço do corpo, do esquecimento, e nos falam de uma poética emaranhada à vida, em aberto, pronta para se conectar a outros acontecimentos e práticas, como fio-ação, conceito-chave proposto pela artista. No destecer de práticas tradicionais, Mariana inventa o bordar e o tecer enquanto trabalhos artísticos experimentais e introduz fissuras na normatividade do sistema de arte ao recuperar nessa experimentação fazeres artesanais que apenas recentemente passam a figurar no terreno da chamada arte contemporânea.

O destecer dessas práticas coloca em jogo o estabelecido: consiste em “fazer coexistir no interior da mesma linguagem práticas antagônicas”, como diria a artista, e revela, ao mesmo tempo, as tensões sociais, históricas e plásticas que estão na estrutura dos sistemas aos quais essas práticas pertencem originalmente.

Unidades

Sesc Barra Mansa

Domingo, Terça, Quarta, Quinta, Sexta e Sábado | Livre | Gratuito

De terça a sexta: 9h30 às 20h30
Sábado e domingo: 9h30 às 17h30

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