teatro-Amir Haddad

Amir Haddad por Aderbal Freire-Filho

Homem de teatro que construiu uma sólida e importante trajetória para a cultura brasileira,  vigoroso defensor da arte pública no país, Amir Haddad faz aniversário nesta quinta, 2 de julho. Celebramos esta personalidade que esteve em diversas de nossas unidades assinando a direção do espetáculo Antígona, com atuação da atriz Andréa Beltrão em 2019. No Festival Sesc de Inverno de 2014, o artista participou da edição sobre a arte e urbanidade no seminário promovido pela instituição intitulado Arte Urbana e a (re)construção do imaginário da cidade. Em publicação realizada pelo Sesc RJ, o também diretor Aderbal Freire-Filho escreveu uma bonita homenagem ao artista, que tornamos a publicar aqui:

Amir por Aderbal Freire-Filho

Amir Haddad, 83 anos
Amir Haddad

O Amir Haddad, assim com esse nome, foi ao Egito. Deve ter sido aí pelo fim dos ano 90, em um festival, um congresso… Mal chegou, os egípcios puxaram papo. Em árabe, claro. Ele calado. No hotel ou onde o apresentavam, todos queriam conversar com o Amir e ele sem entender por que diabos falavam tanto com ele. Até que o recepcionista do hotel revelou sua decepção, que era a de todos: com esse nome e com essa cara, o senhor não sabe falar árabe, a língua do seu povo? O Amir não se perdoou. Quando voltou de lá, quase chorou em contando: cara, eu não sei falar a língua do meu povo, de onde eu venho. Não sei se agora ele já sabe árabe, é capaz, tanto ele preza as raízes, a sociedade como formadora do indivíduo, o homem social.

Mas os egípcios foram cruéis, acertaram no único ponto fraco do Amir. Porque, tirando o árabe, ele sabe tudo. E, depois, saber árabe nascendo em Guaxupé é quase impossível, mesmo na família Haddad, mesmo se chamando Amir. E o tempo que podia ter dedicado a aprender árabe, ele dedicou a uma língua universal, chamada teatro. Através dessa língua, o teatro, o Amir é compreendido no Ocidente e no Oriente, com ela não há fronteiras para a expressão das suas ideias e dos seus sentimentos. Para dizer com palavras que ele preza, em teatro o Amir diz tudo o que querem dizer sua cabeça e seu coração.

Por saber dessa sua capacidade ilimitada de expressão, posso dizer que não conheço teatro mais novo do que o do Amir, assim como não conheço teatro mais novo do que o de Shakespeare, E posso dizer de outro jeito: assim como a dramaturgia contemporânea, isto é, as novas dramaturgias, caminham em direção a Shakespeare, a cena contemporânea caminha em direção a Amir Haddad.

Muitos de nós já ouvimos a história do teatro contada pelo Amir, com palavres dele e com o magnetismo com que ele fala e abre nossa cabeça. Uma história que começa com o teatro de todos, ou do povo, ou popular, ou do homem – como prefiram chamar. E que aos poucos vai sendo usurpado pelos nobres, pelos senhores, pelos poderosos, pelas classes dominantes – como prefiram chamar. Nesse mesmo movimento, enquanto o teatro vai se fechando nas salas dos palácios, depois em edifícios próprios, mais ou menos suntuosos, a arte teatral vai se fechando em regras e convenções estreitas.

Ou seja, o universo da cena vai perdendo a dimensão da arte tal como ela existe em Cervantes, em Rabelais, em Shakespeare, em Suassuna – onde o culto não recusa o popular, pois encontra nele sua seiva e sua constante renovação. Paralelamente, vai desacreditando nos infinitos saberes e poderes do homem e passa a falar só a língua pobre do burguês. Até deixar de ser o teatro aberto à fantasia, à ilusão, à imaginação: a santíssima e satânica trindade da criação artística.

Como Shakespeare nasceu um pouco antes do Amir, dizem que também em Guaxupé, dá para entender essa história acompanhando o destino das peças dele ao longo dos últimos 400 anos. Quando foram escritas, eram apresentadas ao ar livre e ao homem livre. Depois fecharam o teto dos teatros e a cabeça dos espectadores; colocaram cortinas que abriam e fechavam entre uma cena e outra; levantaram paredes para mostrar castelos e colocaram telões pintados com árvores e até árvores mesmo para mostrar florestas… Como puderam roubar tanto os poderes da cena (e os poderes da imaginação, isto é, do homem) do grande Shakespeare?

Amir devolve a Shakespeare a cena poderosa, e o cara pode outra vez, no teatro, agarrar a consciência do rei. Nada mais novo no teatro do que o ator vivo e presente e solto das correntes com que o amarraram enquanto roubavam de Shakespeare os poderes da cena. Está bem, existem novas poéticas e novos horizontes estéticos, mas nada tem sentido fora do ator presente. Muitas vezes, uma tentativa de renovação poética se desmancha no ar de uma atuação viciada, literária, armada, solene e seca. Amir desmonta o ator que ainda carrega o lado ruim daquela história contada por ele e o apresenta vivo a Shakespeare. William, aqui estão os atores, aqui está a trupe, outra vez viva. Obrigado, Amir. Por nada, William. Continuamos juntos.

Amir devolve o teatro ao homem. Quis fazer isso tão veementemente, tão completamente, que veio para a  praça, para a rua. Mas antes de vir, Amir já era popular e erudito, aberto à fantasia, à imaginação, já tinha a desmedida da ilusão.

Vou lembrar um pouco o ano de 1970, com o olhar curioso e assustado de quem estava chegando ao Rio. Tinha: o Solar da Fossa, um lugar encantado para viver, olhar, sentir, pensar; Santa Teresa, não a própria, mas o bairro; o anúncio da Era de Aquarius; o medo da repressão; a descoberta da maconha; o amor livre; tinha só para loucos, só para raros; telefone público em botequim, a novidade ainda não era celular, mas o orelhão; era outra civilização. Às vezes, todas essas coisas estavam representadas por um nome. Um nome como, por exemplo, Comunidade. A comunidade. Era o nome mágico de um grupo de teatro, sediado no MAM e que montou uma peça chamada A construção, que pouco depois de apresentada virou lenda.

Por uma década, a partir do nascimento dessa lenda e até a criação do Tá na Rua, um semideus chamado Amir Haddad cresce na cidade: anda pelas ruas da Lapa; atravessa o túnel até Copacabana e vai à caça na Rua Raul Pompeia; cruza a Rio Branco e dá uma entradinha em um edifício de nove andares ao lado de onde existiu o Trianon; volta a Copacabana e sobe as escadas rolantes de um centro comercial para dançar um tango; frequenta assiduamente um prédio velho atrás do Campo de Santana, Rua Vinte de Abril, onde transmite para os jovens as palavras mágicas: começa uma guerrilha na Praça Tiradentes, que junta artistas guerrilheiros no movimento chamado Somma e muda para sempre a cara do teatro carioca. Depois, vai pra rua.

Assim como na vida de Shakespeare, alguns momentos da formação do Amir são desconhecidos, outros aventurosos. Sabe-se que ele foi da sua Guaxupé para o interior de São Paulo, daí para a capital, conheceu Zé Celso na Faculdade de Direito, participou da fundação do Teatro Oficina e dirigiu alguns dos primeiros espetáculos do grupo. Depois esteve três ou quatro anos na região amazônica, mais exatamente em Belém do Pará, onde conviveu com um casal formado por um sábio e uma artista: Benedito Nunes e Maria Silvia. Um capítulo desconhecido da história da literatura brasileira foi a criação, por Benedito Nunes, o Bené, junto com Maria Silvia, o poeta Max Martins e um casal de forasteiros que se perdeu no tempo – da Academia da Rua da Estrela, que se reunia aos sábados à noite para falar de Proust, de Machado, de teatro, de poesia e da cozinha paraense.

Amir não sabe até hoje, mas ele era, de certa forma, o patrono dessa Academia. Enfim, com a força da floresta amazônica temperada na Rua da Estrela com a cultura universal, Amir chegou ao Rio, onde está até hoje: semideus, homem de teatro, homem. E de onde sai para muitas viagens. Acho que nenhum artista viaja tanto pelo Brasil como Amir, caixeiro viajante do teatro, hoje no Rio Grande do Norte, amanhã no Ceará, depois em minas, outras vezes em Tocantins, no Maranhão… Às vezes, sai do Brasil, uma vez foi ao Egito, outra à Espanha, e em todo lugar é compreendido, porque ele fala teatro, a língua universal que ele busca tornar mais e mais expressiva, ilimitada.

Pois bem, pode ser que, daqui a uns séculos, o que aconteceu com Shakespeare aconteça com Amir. E surjam teorias de que ele não existiu, os semideuses não existem, ninguém pode ser tantos…

Mas como estamos perto dele e olhamos pra ele e falamos com ele e ouvimos o que ele diz, vamos aproveitar.

Conheça um pouco mais sobre Amir Haddad

Clique aqui e confira outras notícias sobre Cultura no Sesc RJ

Notícias relacionadas

Ver todas as notícias

#ConectadosPeloSocial | Funcionários falam sobre o retorno às atividades presenciais

Veja mais
Cinema-online-dicas-sescrj

O cinema e a música de Sérgio Ricardo

Veja mais
Jovens que mudaram o mundo

Jovens que mudaram o mundo

Veja mais
Hotel Sesc Copacabana

Reabertura do Hotel Sesc Copacabana

Veja mais