Slam Poetry

Slam Poetry – Batalhas de Poesia

Slam Poetry, ou batalhas de poesia, é uma expressão artística que une verso e performance em competições de poesia falada é um fenômeno mundial e potente movimento cultural contemporâneo. 

Por Vicente Costa
Bibliotecário e Analista de Literatura do Sesc RJ

De origem da língua inglesa, a palavra Slam que significa batida, uma onomatopeia do som do impacto – ou choque de superfícies, como por exemplo uma batida de porta – termo propício ao efeito que a expressão artística do Slam Poetry nos provoca. Impacto!

Mas o que é Slam Poetry?

Slam Poetry – traduzido literalmente por batalha de poesia – são competições de poesia falada, onde qualquer pessoa pode participar. Cada poeta tem até três minutos para apresentar poemas de autoria própria, sem acompanhamento musical, uso de adereços, figurinos ou qualquer auxílio visual. O slammer – como são chamados os poetas competidores nas batalhas – defende sua composição através de performances que contemplam corpo e voz como instrumento no ato de recitar. Há também a figura do Slammaster – mestre de cerimônia do slam – que conduz e produz o evento.

No que diz respeito ao texto, não há regras sobre o formato da poesia e ela pode ser escrita previamente e lida na hora assim como também podem haver improvisações. As apresentações dos poetas são avaliadas por júri, formado por cinco pessoas escolhidas aleatoriamente na plateia, com notas de zero a dez que levam em consideração além do conteúdo do poema, a performance do poeta. Metaforicamente falando, o slam pode ser considerado como o esporte da poesia falada.

Onde surgiram os campeonatos de poesia?

Os campeonatos de poesia foram criados em 1984 na cidade de Chicago nos Estados Unidos, pelo operário de construção civil e poeta Marc Kelly Smith – o uso da palavra Slam foi baseada em esportes como Baseball, Basketball e Tenis nos quais o termo citado (ou sua variante Grand Slam) é recorrente para se referir as fases finais de seus torneios. Marc acreditava na poesia em um formato mais relaxado e livre, contrapondo-se a perspectiva acadêmica e elitizada do gênero – é importante contextualizar que uma década antes (1970), um movimento cultural que tinha a palavra falada em versos livres como uma das suas principais características ganhara forte adesão, a princípio nos guetos e posteriormente nos centros urbanos nos Estados Unidos. Esse movimento era conhecido como spoken word – Palavra Falada, em tradução literal – e foi umas das bases para o início do RAP – Ritmo e Poesia, em tradução literal.

No primeiro momento estes eventos poéticos aconteciam em cafés e bares de Chicago, subsequentemente se espalharam pelas periferias e propagaram-se pelo mundo. Atualmente o slam está presente em diversos países como Irlanda, Inglaterra, Austrália, México, Canadá, Zimbabue, Alemanha, Madagascar, Itália, Singapura entre outros.

A França possui uma das maiores comunidades e estruturações do movimento slam poetry. O país realiza anualmente a Copa do Mundo de Slam, reunindo poetas de diversos países. O torneio é considerado um dos mais importantes da modalidade e é promovido pela Federação Francesa de Poesia Slam, em Paris.

Slam Poetry no Brasil

As batalhas de poesias desembarcam em terras brasileiras em 2008 por intermédio da atriz-MC, pesquisadora e poeta Roberta Estrela D’Alva, fundadora do ZAP! Slam – Zona Autônoma da Palavra – em São Paulo através do coletivo de teatro hip-hop Núcleo Bartolomeu de Depoimentos. Roberta foi finalista da Copa do Mundo de Poesia Falada em 2011, conquistando o terceiro lugar nesta ocasião.

Em 2012 foi fundado o segundo evento poético do Brasil, o Slam da Guilhermina, pelo poeta Emerson Alcalde. Com proposta pioneira, o evento tornou-se o primeiro no Brasil a ser realizado na rua, o que se tornou característica marcante das batalhas poéticas em nosso país. Emerson também foi finalista da Copa do Mundo na capital francesa em 2014, conquistando o vice-campeonato.

Estes resultados conquistados foram importantes para a projeção do Slam no Brasil. Com o passar do tempo, novos grupos surgem e passam a registrar algumas apresentações, como por exemplo o Slam Resistência que ocorre em São Paulo, que ao compartilhar os vídeos de poemas nas redes sociais entre os anos de 2015 e 2016, acabam tendo seus conteúdos viralizados na internet, difundindo e angariando admiradores para a cena.

A nível nacional o campeonato mais importante é o SLAM BR. O evento que ocorre em São Paulo e em 2019 realizou sua sexta edição, no Sesc Pinheiros. O torneio recebe os ganhadores dos circuitos estaduais de poesia falada que performam seus poemas. O vencedor representa o Brasil na Copa do Mundo de Slam na França.

Além dos campeonatos e batalhas locais, os slams estão presentes nas festas e festivais literários, ocupando lugar de destaque como na Festa Literária Internacional de Paraty de 2019 (FLIP2019) na qual o evento foi uma das atrações mais aguardadas, realizada no palco principal do evento. Na Festa Literária das Periferias (FLUP) é realizado o Rio Poetry Slam, um campeonato internacional de slam que reúne os poetas através de curadoria e o Slam Nacional, reunindo poetas do país, e já contou com as modalidades de batalhas simples, duelo tradicional, e batalhas em dupla – dois poetas em cada time para duelo. Há também o projeto Slam Colegial FLUP que conta com a participação de estudantes de ensino médio, estimulando-os a recitar e performar textos de sua autoria. Em 2019 o evento aconteceu na Bienal Internacional do Livro do Rio.

Segundo levantamento do SLAM BR – Campeonato Brasileiro de Poesia Falada – existem mais de 200 grupos de slam, distribuídos por todas as regiões do Brasil. O país formado sobre grande influência das oralidades africana e indígena, da palavra cantada dos repentes, do coco e da embolada e dos regionalismos em geral, tem no slam solo fértil e democrático de agregar às poesias particularidades de cada localidade, criando diversidade única para este movimento artístico-literário.

Os slams brasileiros constituíram-se de característica responsiva às questões do seu tempo e localidade, abordam temas contemporâneos presentes ou invisibilizados na sociedade com propriedade permeada pelas vivências dos poetas. Temas como mazelas sociais, questão da mulher negra na sociedade, questões de gênero, feminismo, racismo, preconceito, denúncias, política e militância, entre outros, são abordados de forma visceral através de composições que expressam situações muitas vezes de cunho íntimo, e criam vinculo imediato com o público, transformando os eventos em geral em ambientes tanto de fala quanto de escuta. Configura-se também como elemento engajador ao proporcionar, sobretudo ao jovem das comunidades que é comumente colocado a margem, o espaço de criador e propagador de sua própria narrativa. A poesia estática e distante nas estantes sai às ruas e se aproxima do público, ganha corpo, voz e vez.

Leia também: Slam Poetry no Rio de Janeiro

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