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Literatura LGBTQIA+ Ocupando espaços através da arte e da palavra

Mesmo antes de Stonewall haviam escritores que já destacavam questões LGBTQIA+ em sua escrita. Exemplo disso são os poetas e escritores da geração beat, movimento de contracultura que surgiu ao final da década de 1950. Allen Ginsberg foi um dos principais autores estadunidenses dessa geração. Assumidamente homossexual, o autor contestava não somente o modelo de sistema capitalista e o militarismo, mas também a repressão sexual. Escrevia em seus poemas sobre suas experiências homoafetivas e a forma como a comunidade gay era tratada na época, por conta disso, alguns de seus textos foram censurados pela polícia em vários momentos, sendo inclusive a ser sentenciado por atos obscenos. Ginsberg ganhou prêmios literários, e foi finalista do Prêmio Pulitzer de 1995. Em sua autobiografia “Memórias de uma beatnik”, Diane Di Prima, escritora da geração beat e ativista dos direitos humanos, descreve seu cotidiano na agitada Nova Iorque durante as décadas de 1950 e 1960, em cafés, bares, juntamente com seus amigos poetas, que na época eram majoritariamente homens.

Sob o ponto de vista feminino, Diane Di Prima narra principalmente suas experiências sexuais, assunto proibido pelas autoridades não só no que se referia a heterossexualidade, mas principalmente a homossexualidade. No Brasil, o romance “O bom crioulo” concebido em 1895 pelo escritor Adolfo Caminha, é considerado um dos primeiros romances sobre homossexualidade, e apresentava não só a relação homoafetiva, mas também interracial em ambiente militar. Vale destacar que, apesar de escrever sobre um romance homoafetivo, o autor viveu em matrimônio heterossexual até sua precoce morte e nunca se declarou homossexual.

Em 1924, Mário de Andrade, um dos maiores autores da literatura brasileira, publica o conto “Frederico Paciência”, considerado por especialistas um dos símbolos da literatura gay de língua portuguesa. Mais de 50 anos após sua morte, o pesquisador Jason Técio publicou biografia de Mário de Andrade – Em busca da alma brasileira: biografia de Mário de Andrade (2019) – com base em documentos e correspondências guardados durante todo esse período. Os detalhes íntimos presentes em suas correspondências revelam que Mário era bissexual.

Outro importante autor da literatura brasileira foi Caio Fernando Abreu. O autor assumiu sua homossexualidade em pleno período ditatorial e era em sua própria vida que buscava inspiração para escrever. Angústia, sexo, medo, morte e solidão eram os principais temas abordados em seus contos e crônicas. Caio Fernando Abreu morreu devido a complicações ocasionadas pela infecção do vírus HIV, e é interessante observar a coincidência que ele faleceu no mesmo dia de Mário de Andrade, com diferença de 51 anos entre as datas. O autor foi homenageado do Sesc RJ em 2016 no projeto A Palavra Líquida.

Assim como nos Estados Unidos, a literatura LGBTQIA+ brasileira tinha mais protagonismo masculino, mas não eram só eles que estavam a fazer história. Cassandra Rios, pseudônimo de Odette Pérez Rios, escritora brasileira nascida em 1932 na cidade de São Paulo, publicou seu primeiro livro aos 16 anos já com a temática lésbica. “Volúpia do Pecado” foi recusado por todas as editoras a que foi apresentado, sendo publicado pela própria autora. O livro teve grande sucesso, chegando a ter várias reimpressões.

Em 1962 o livro foi proibido e retirado de circulação pela ditadura militar, que nesta época já mirava as obras de Cassandra Rios. Assumidamente lésbica e tendo escrito mais de 40 obras com a temática sexual, Cassandra teve outros livros proibidos pela ditadura e ficou conhecida como “a escritora maldita”. Apesar da constante perseguição e sendo considerada a escritora mais censurada da história da ditadura militar brasileira, em 1970 ela foi também a primeira escritora a alcançar a venda de mais de um milhão de exemplares, superando autores como Jorge Amado e Clarice Lispector.

A literatura LGBTQIA+ contemporânea já não enfrenta tanta resistência quanto nas décadas passadas, apesar da constante tentativa de boicote por parte de grupos conservadores,  autores e autoras LGBTQIA+ sempre buscaram formas de enfrentar a luta contra o preconceito através de sua arte. João Silvério Trevisan é um importante escritor, ensaísta, dramaturgo e jornalista da vanguarda e ainda está na ativa. Em uma viagem à Califórnia em 1973, após a censura de seu único longa-metragem “Orgia ou o Homem que deu Cria”, Trevisan entra em contato com o ainda jovem movimento gay organizado e só retorna ao Brasil em 1978, quando funda o grupo “Somos – Grupo de Afirmação Homossexual”, o primeiro grupo brasileiro em defesa dos direitos dos homossexuais, e se torna o editor do jornal “O Lampião da Esquina”.

Entre romances, contos e ensaios, tem 14 livros publicados e recebeu três vezes os Prêmios Jabuti e da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA). Em 2018, foi finalista dos Prêmios Jabuti e Oceanos. Através de sua literatura e demais obras, Trevisan defende o direito de amar para todos.

Nos últimos anos mais escritores e escritoras LGBTQIA+ tem tomado a cena literária. Angélica Freitas com seu livro “Um Útero é de Tamanho de um Punho”, possui narrativa poética e conta com relatos de outras mulheres. Ryane Leão em “Tudo Nela Brilha e Queima”, trata de temas como amor, dor, desapego e relações entre mulheres. Ryane é moradora de São Paulo e traduzia sua poesia em manifestações pela cidade através da técnica de lambe-lambe,
obtendo bastante apelo na internet com a página “onde jazz meu coração” no aplicativo instagram.

O primeiro homem trans brasileiro a realizar cirurgia de redesignação sexual, João W. Nery, sentiu na pele as dificuldades de se envelhecer como transgênero no Brasil. João escreveu quatro livros, e em todos aborda as questões de pessoas transgêneros, sendo “Velhice transviada” um compilado de suas memórias. O livro foi finalizado em 2018, pouco antes de seu falecimento devido à um câncer, e publicado em 2019.

Outra artista transgênero que tem grande destaque nacional é Laerte Coutinho, cartunista e chargista brasileira, considerada uma das artistas mais importantes da área no país. Laerte começou sua carreira no final da década de 1960, ainda durante a ditadura militar brasileira, e assim como tantos artistas criticava o regime, mas é somente em 2004 que se questiona sobre sua identidade de gênero e como isso é retratado em sua produção artística. Laerte Coutinho assume sua transgeneridade no ano de 2009.

Lucas Rocha, oriundo do município de São Gonçalo, estreia na literatura com o romance “Você tem a vida inteira”, em que narra a história de uma relação homoafetiva entre jovens, permeada pelas dúvidas, pelos medos e preconceitos diante do diagnóstico positivo do HIV. O livro foi traduzido para o idioma inglês – sob o título “Where We Go From Here” – tem circulado pelos Estados Unidos.

Da Baixada Fluminense, observamos também a literatura de Marlon Souza, o escritor, editor e produtor cultural, alcançou mais de 50 mil visualizações em seu livro “O Garoto do Cabelo Azul”, disponibilizado na plataforma WattPad. Marlon também produz o evento LiteraCaxias, que em suas edições já destacou a literatura LGBTQIA+ em mesas de debates.

A literatura LGBTQIA+ pode ser expressada em qualquer gênero literário e tem por característica autores e autoras da comunidade LGBTQIA+ e/ou envolve personagens e temas da cultura gay. O primeiro prêmio literário a ser destinado exclusivamente a este nicho da literatura foi o “Stonewall Book Award” – patrocinado pela Comissão de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros da American Library Association. O prêmio, criado em 1971 sob o
título de Gay Book Award, desde então sofreu algumas modificações em sua nomenclatura, até que em 2002 ficou definido como é hoje e assim tornando-se mais abrangente. Ele é o primeiro e mais duradouro prêmio LGBTQIA+ e anualmente premia trabalhos em língua inglesa nas categorias de ficção e não ficção. Os ganhadores recebem, além de uma placa, uma bolsa em dinheiro.

Em relação a prêmios no Brasil, em 2018, o livro “As coisas” de Tobias Carvalho foi o vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, na categoria Contos. No livro, o autor de 23 anos – natural da cidade de Porto Alegre – narra o cotidiano de um jovem homossexual que viaja, estuda, namora, e vive a solidão e os vazios em suas relações. Em 2019, houve a primeira edição do Prêmio Mix Literário que desenvolveu programação semanal a volta de autorias e conteúdos
LGBTQIA+, que além de evidenciar os melhores livros de 2018/2019, proporcionou debates em torno da produção literária LGBT em diferentes nichos da cadeia produtiva do livro e leitura.

Sobre as premiações, o livro vencedor foi “Ninguém vai lembrar de mim” da autora Gabriela Soutello. Houve também menção honrosa ao livro “Glitter” do autor Bruno Ribeiro. Também em 2019, cabe citar uma situação ocorrida na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, o ato de censura à um livro da Marvel Comics que continha uma cena de beijo entre duas pessoas do mesmo sexo. O caso teve bastante repercussão pois um famoso youtuber em contrapartida ao ato do poder municipal, comprou 14 mil exemplares de livros com temática LGBT e os distribui
gratuitamente no evento, reforçando a luta contra a intolerância e preconceito.

As ruas também são partes ativas da revolução literária LGBT +. No movimento de batalhas de poesia, conhecido como Slam Poetry, poetas ocupam locais públicos com suas vozes, corpos e manifestos de suas lutas diárias. Tendo em seus fundadores o poeta Tom Grito – uma pessoa transmasculine não binarie – Slam das Minas RJ, tem a proposta de ser espaço de resistência, reflexão e denúncia para mulheres – cisgênero ou transgênero – homens trans e pessoas não binárias. É um dos slams de maior adesão de público do estado e já participou da programação
de eventos importantes como o Rock in Rio 2019 e um torneio internacional de poesia na cidade de Montevidéu no Uruguai este ano, entre outros. Em 2019 houve o campeonato nacional de poesia falada exclusivo para mulheres transgênero e cisgênero – o Torneio Singulares, vencido pela poeta carioca Sabrina Azevedo. Ainda em 2019, Pietá Poeta ganhou o Campeonato Brasileiro de Slam Poetry. Outros poetas oriundos da cena Slam que se destacam
são, o também artista plástico, ator e drag queen Dudu Neves e a poeta, cantora e atriz Valentine, mulher negra transexual, que também escreve para o site Mídia Ninja, na sua coluna transpoetas, nome homônimo ao coletivo de poetas em que Valentine e outrxs artistxs fazem parte.

A prática artística e a comunicação provocam reflexões e questionamentos do que acontece ao nosso redor. Maurício Oliveira, em seu artigo “Marcuse e Jamenson: da cultura afirmativa ao pós-modernismo”, apresenta duas dimensões possíveis em sociedades capitalistas, sendo a  primeira delas a produção material útil, aquilo que é necessidade, o trabalho; a segunda dimensão é a cultura, para a qual é possível manifestar os valores da alma, aquilo que afeta o
ser humano e revela seus desejos. A sensibilidade às transformações do mundo pode ser expressada através da arte, e retratar, questionar a exploração, opressão, as desigualdades socioculturais, o conservadorismo e autoritarismo. No Brasil a ONG Somos – comunicação, saúde e sexualidade – fundada em 2001 por militantes do movimento LGBT – trabalha principalmente com políticas públicas e realização de projetos de intervenção social ligados à temática de gênero e sexualidade. No que tange a arte, há o investimento em pesquisa, produção e difusão artística e cultural da comunidade LGBT. A ONG recebe o mesmo nome do grupo fundado por João Silvério Trevisan em 1978, porém, apesar de serem destinados a um mesmo público, não são a mesma organização.

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